quinta-feira, 30 de maio de 2013

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O "tal" Código de Conduta


Morar num apartamento, independentemente da localização, área, tipologia ou tipo de acabamentos do mesmo, é basicamente como partilhar casa com um qualquer número de outros indíviduos. Desconhecidos que, por casualidade, acabaram por pertencer a uma espécie de família alargada.

Não pensem que me enganei ao escolher o termo - "família alargada", porque a partir do momento em que se partilham paredes, em que os momentos privados passam a ser comuns, (como notar que o vizinho de cima se levantou a meio da noite para ir à casa de banho, porque ouvimos a descarga do autoclismo), eu diria que, no mínimo estão preenchidos os requisitos para nos considerarmos primos em terceiro grau.

Morar num apartamento é uma experiência totalmente distinta de morar noutro qualquer tipo de habitação, e isso reflecte-se sobretudo na quantidade de cuidados necessários, do cumprimento de regras das quais depende em absoluto a harmonia entre vizinhos.
Para além do que é definido por lei (que prometo que um dia coloco por aqui), existe uma espécie de Código de Conduta com base no senso comum, muito próprio desta tal vida em apartamento, que julgo não se encontrar explanado em lado nenhum, e que é tão essencial para a paz entre este tipo de "famílias alargadas" quanto as regras encontradas nos documentos legalmente consagrados.


via blabaismo

Passo então a listar essas regras implícitas, sobre as quais não se costuma escrever nem falar, mas que todos esperam que sejam seguidas minimamente. Para quem nunca habitou num apartamento, estou certa que muitos dos itens que se seguem parecerão, na melhor das hipóteses, obtusos, picuínhas, e capazes de restringir em muito a liberdade de qualquer indivíduo na sua casa. Estarão correctos!
Culpem os empreiteiros por construirem casas que parecem de papel ou as próprias leis da Acústica!

Por algum motivo a casa de sonho da maioria das pessoas é uma moradia isolada e não um apartamento! Confesso que nem eu sou excepção a esta regra!
Mas sem estas orientações, a vida neste contexto de quase comunidade, seria infernal!
Basicamente, o espírito por detrás destas é o antigo adágio que nos lembra de tratar o próximo da mesma forma com que desejamos ser tratados.


O "tal" Código de Conduta

1 - Ao usar, seja a porta do prédio, de casa, janelas, estores ou até armários, não seja bruto! Não existe qualquer necessidade de causar um estrondo de cada vez que manuseia qualquer coisa.

2 - Por favor, não ande de saltos altos em casa. O toc-toc dos mesmos é dos barulhos mais irritantes que existe. Em casa, opte por usar calçado "silencioso".

via readexpress

3 - Evite arrastar móveis, o som que daí resulta para o seu vizinho de baixo é penoso! Se não o consegue evitar, considere seriamente adquirir os chamados protectores de pés de móveis que, para além de protegerem o chão, abafam em parte o ruído de arrastamento.

4 - Se tem crianças, pense em criar uma zona de brincadeiras e revestir o chão dessa área com espuma, daquela colorida e fofinha, de encaixe, que não só as protege, mas é também uma forma de evitar riscos no pavimento. Coloca-se e retira-se com a maior das facilidades, pois são vendidas em peças que encaixam umas nas outras tipo "puzzle", e os vizinhos de baixo agradecem, pois quem nunca deu em doido com o "pom pom pom" constante de uma bola bem por cima da cabeça?!

5 - Seja razoável na escolha dos horários em que liga o aspirador - nem demasiado cedo, nem demasiado tarde. O mesmo princípio aplica-se ao uso de outros utensílios ruidosos, seja a varinha mágica, o berbequim, etc.

6 - Se aprecia ouvir música em altos berros enquanto conduz, satisfaça esse prazer. Lembre-se somente de diminuir o volume do auto-rádio quando entra numa zona residencial, especialmente durante o período nocturno. Em casa, não abdique de ouvir música se gosta de o fazer. Seja feliz, mas use de bom senso em relação aos horários e ao volume.

7 - As áreas comuns dos prédios, vulgo entradas, são geralmente zonas com muito eco, onde qualquer som ganha uma dimensão redobrada. No período de descanso nocturno tenha especial atenção a esse pormenor. Movimente-se o mais silenciosamente possível.

8 - Chegou de uma saída nocturna e está a ter um último dedo de conversa com a sua companhia? Lembre-se de o fazer no carro, ou se o fizer na rua, não use o mesmo volume de voz que usaria para comunicar dentro da discoteca. Lembre-se que há quem esteja a dormir!

9 - Não se sacodem toalhas, tapetes e afins, à janela quando se mora num prédio. Não há excepções neste ponto.

10 - Não se pendura roupa a pingar no estendal. Igualmente há que ter cuidado com o uso de lixívia e outros produtos similares que possam danificar a roupa do estendal do vizinho, ou outra propriedade.

11 - Os fumadores não devem nunca atirar cinza nem beatas pela janela, nem conspurcar as áreas comuns com as mesmas.

12 - O escoamento de água presente em todas as varandas serve unicamente para a água da chuva, de forma a impedir inundações. Nunca deve ser usado para escoar a água suja com detergente depois de lavar o piso da varanda. As varandas não são pátios,  não se limpam à "mangueirada".

13 - No caso de haver áreas de lazer comuns como piscina, etc, os condóminos devem abster-se de monopolizar as mesmas, através da presença de convidados considerada incómoda pela sua frequência ou quantidade. Contudo há várias soluções engenhosas possíveis como a criação de horários, onde ficam calendarizados os dias em que cada condómino pode trazer convidados a seu bel-prazer. Há até condomínios onde se cobra determinada quantia por convidado, de forma a que cada um contribua para a manutenção da área que usufruiu.

14 - A fachada de um prédio não é a "baliza" mais apropriada para um jogo de futebol.



15 - Pela segurança de todos, as instalações de gás ou de qualquer equipamento susceptível de causar dano, deve ser instalado por profissionais qualificados, seguindo escrupulosamente todos os parâmetros de segurança. Igualmente, aquando uma ausência demorada, (como férias), deve haver o cuidado de cortar o fornecimento de gás e água usando as torneiras de segurança.

16 - Na hora do churrasco, há que verificar se o fumo irá incomodar os vizinhos, entrando nas suas casas, deixando mau cheiro nas roupas que estão a secar no estendal.

17 - Uma garagem é um espaço pensado para estacionamento de veículos. Ponto. Não deve nunca ser usada para armazenamento de produtos e bens, que pela sua natureza, sejam susceptíveis de causar incómodo, (ex: cheiros), ou sejam perigosos por serem tóxicos, inflamáveis, etc. Não são espaços que devam ser usados como oficinas, para comércio ou actividades recreativas.
Normalmente existe alguma tolerância para com o uso dado a estes espaços, desde que as actividades realizadas passem despercebidas, não causando incómodo, mas devem ser absoluta e imediatamente cessadas caso se verifique o contrário.

18 - A boa manutenção dos edifícios é obrigatória por lei. Isso implica vistorias, pinturas e arranjos diversos que, por sua vez, se traduzem em custos. Participar activamente nas reuniões de condomínio, e aceitar as responsabilidades inerentes é dever de todos, sem excepção.

19 - Cada pessoa deve adoptar hábitos de higiene e limpeza suficientemente eficazes, não só pela sua qualidade de vida, mas também para não incomodar os vizinhos.

20 - Os proprietários das fracções que sejam alugadas as terceiros, devem ser os primeiros a educar os inquilinos sobre o Código de Conduta.


domingo, 26 de maio de 2013

coisas que gosto: De me perder...


Ontem foi um bom dia para passear e foi exactamente o que fizemos.
Lá fomos nós por entre paisagens serranas, percorrendo devagarinho estradas que pareciam só nossas. Daquelas que nos levam por entre pequenas povoações, de seus nomes curiosos, de tal modo camufladas no meio do arvoredo que acredito que, os filhos de outras terras têm obrigatoriamente que se perder para as encontrar.

E como nós gostamos disso! De nos perder propositadamente, de pedir ao gps que nos leve ao destino pelo caminho menos percorrido.

Mais do que um gosto é uma necessidade. A de recarregar baterias em locais onde a expressão da Natureza ainda é maior do que a presença do Homem.
Porque morar num apartamento deixa-nos exaustos!
Os olhos ficam sedentos de planos mais abertos, onde a linha do horizonte não seja escrita pelos telhados de outros edifícios, de cenários generosos em verde onde o paisagismo não tenha sido pensado por alguém.
Quantas vezes nos desviamos por tal estrada ou caminho, só para passar por um prado, um retalho de terra intocado.

A maior recompensa destas fugas é o silêncio. Entrar numa serra é deixar para trás o barulho dos vizinhos, dos carros e das motos, de quem passa nas ruas, dos equipamentos eléctricos. É renovar a paciência para tudo isto quando já não resta nem uma grama de boa vontade para com os outros.

Quando todos os sinais de existência de outras pessoas são exasperantes, o melhor remédio é perdermo-nos.




sexta-feira, 24 de maio de 2013

coisas de pensar: Os Versos de Ouro de Pitágoras


Pitágoras foi um filósofo grego, matemático e pensador excepcional.

Todas as crianças aprendem na escola o Teorema de Pitágoras. Seria igualmente importante transmitir-lhes a essência dos seus Versos de Ouro.
Acredito que os mesmos reflectem uma sabedoria universal e intemporal, de cariz filosófico com o poder de engrandecer qualquer indivíduo, independentemente do seu género, estatuto, nacionalidade ou credo.

Pitágoras por Rafael


Os Versos de Ouro de Pitágoras


1. Honra em primeiro lugar os deuses imortais, como manda a lei.

2. A seguir, reverencia o juramento que fizeste.

3. Depois os heróis ilustres, cheios de bondade e luz.


4. Homenageia então os espíritos terrestres, e manifesta por eles o devido respeito.
 
5. Honra em seguida a teus pais, e a todos os membros da tua família.

6. Entre todos os outros, escolhe como amigo aquele que se distingue por sua virtude.
 
7. Aproveita sempre suas suaves exortações, e segue o exemplo das suas ações virtuosas e úteis.
 
 8. Mas evita, tanto quanto possível, afastar-te do teu amigo por um pequeno erro.
 
 9. Porque a força é limitada pela necessidade.
 
10. Lembra que todas essas coisas são como eu te disse.
 
11. Mas acostuma-te a vencer essas paixões: primeiro, a gula; depois a preguiça, a luxúria e a raiva.
 
12. Nunca faças junto com outros, nem sozinho, algo que te dê vergonha.
 
13. E, sobretudo, respeita a ti mesmo.
 
14. Pratica a justiça com teus atos e com tuas palavras.
 
15. E estabelece o hábito de nunca agir impensadamente.
 
16. Mas lembra sempre um fato, o de que o destino estabelece que a morte virá a todos;
 
17. E que as coisas boas do mundo são incertas, e assim como podem ser conquistadas, podem ser perdidas.
 
18. Suporta com paciência e sem murmúrios a tua parte, seja qual for,
 
19. Dos sofrimentos que o destino determinado pelos deuses lança sobre os seres humanos.
 
20. Mas esforça-te por aliviar a tua dor no que for possível,
 
21. E lembra que o destino não manda muitas desgraças aos bons.
 
22. O que as pessoas pensam e dizem varia muito; agora é algo bom, em seguida é algo mau.
 
23. Portanto, não aceites cegamente o que ouves, nem o rejeites de modo precipitado.
 
24. Mas, se forem ditas falsidades, retrocede suavemente e arma-te de paciência.
 
25. Cumpre fielmente, em todas as ocasiões, o que te digo agora:
 
26. Não deixes que ninguém, com palavras ou atos,
 
27. Te leve a fazer ou dizer  o que não é melhor para ti.
 
28. Pensa e delibera antes de agir, para que não cometas ações tolas,
 
29. Porque é próprio de um homem miserável agir e falar de modo impensado. 
 
30. Mas faze aquilo que não te trará aflições mais tarde, e que não te causará arrependimento.
 
31. Não faças nada que sejas incapaz de entender,
 
32. Mas aprende tudo o que for necessário aprender, e desse modo terás uma vida feliz.
 
33. Não esqueças de modo algum a saúde do corpo,
 
34. Mas dá a ele alimento com moderação, o exercício necessário e também repouso à tua mente.
 
35. O que quero indicar com a palavra moderação é aquilo que não te provocará mal-estar.
 
36. Acostuma-te a uma vida decente e pura, sem luxúria.
 
37. Evita todas as coisas que causarão inveja.
 
38. E não cometas exageros no uso de bens materiais. Vive como alguém que sabe o que é honrado e decente.
 
39. Não ajas movido pela cobiça ou avareza. É excelente usar a justa medida em todas essas coisas.
 
40. Faze apenas as coisas que não podem ferir-te, e decide antes de fazê-las.
 
41. Ao deitares, nunca deixes que o sono se aproxime dos teus olhos cansados,
 
42. Enquanto não examinares com a tua consciência mais elevada todas as tuas ações do dia.
 
43. Pergunta: “Em que errei? Em que agi corretamente? Que dever deixei de cumprir?”
 
44. Recrimina-te pelos teus erros, alegra-te pelos acertos.
 
 
 
45. Pratica integralmente todas essas recomendações. Medita bem nelas. Tu deves amá-las de todo coração.
 
46. São elas que te colocarão no caminho da Virtude Divina,
 
47. Eu o juro por aquele que transmitiu às nossas almas o Quaternário Sagrado,
 
48. A fonte da Natureza, cuja evolução é eterna.
 
50. Quando fizeres de tudo isso um hábito,
 
51. Conhecerás a natureza dos deuses imortais e dos homens,
 
52. Verás até que ponto vai a diversidade entre os seres, e também aquilo que os reúne em si e os coloca em unidade uns com os outros.
 
53. Verás então, de acordo com a Justiça, que a substância do Universo é a mesma em todas as coisas.
 
54. Desse modo não desejarás o que não deves desejar, e nada nesse mundo será desconhecido de ti.
 
55. Perceberás também que os homens lançam sobre si mesmos suas próprias desgraças, voluntariamente e por sua livre escolha.
 
56. Como são infelizes! Não vêem, nem compreendem que o bem deles está a seu lado.
 
57. Poucos sabem como libertar-se dos seus sofrimentos.
 
58. Esse é o peso do destino que cega a humanidade.
 
59. Como grandes cilindros, os seres humanos rolam para lá e para cá, sempre oprimidos por sofrimentos intermináveis,
 
60. Porque são acompanhados por uma companheira sombria, a desunião fatal entre eles, que os lança para cima e para baixo sem que percebam.
 
61. Trata, discretamente, de nunca despertar desarmonia, mas foge dela!
 
62. Oh, Grande Zeus*,  pai dos homens, você os livraria de todos os males que os oprimem, se você mostrasse a cada um o Espírito que é seu guia.
 
63. Porém, tu não deves ter medo, porque os homens pertencem a uma raça divina,
 
64. E a natureza sagrada revelará a eles os mistérios mais ocultos.
 
65. Se ela comunicar a ti os seus segredos, colocarás em prática, com facilidade, todas as coisas que te recomendo.
 
66. E ao curar a tua alma a libertarás de todos esses males e sofrimentos.
 
67. Mas evita as comidas pouco recomendáveis para a purificação.
 
68. E a libertação da alma; usa um claro discernimento em relação a elas, e examina bem todas as coisas,
 
69. Buscando sempre guiar-te pela compreensão divina que tudo deveria orientar.
 
70. Assim, quando abandonares teu corpo físico e te elevares no mais puro éter,
 
71. Serás divino, imortal, incorruptível, e a morte não terá mais poder sobre ti.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Os meus pecados #2


Não encontro grande prazer em cozinhar só para mim mas, é algo que gosto de fazer para os outros. Leia-se aqueles que amo, sejam família ou amigos, ou até para os animais.

O meu pecado é que não sei fazê-lo em doses medidas, contidas, razoáveis. Faço sempre muito mais do que o necessário. Segundo a minha cara metade, cá em casa, cozinha-se para um regimento. Neste caso um regimento de dois.
Tivesse eu um restaurante e seria, certamente, um daqueles onde as doses são fartas, a comida caseira, e o cardápio improvisado de acordo com o humor da cozinheira.

Há quem diga que são mais "olhos que barriga". Eu acho que é mais coração.
Se cozinhar é um acto de amor e de afectos, - que o é certamente -  fazê-lo em doses generosas é uma expressão natural disso mesmo.

via "na minha panela"






domingo, 19 de maio de 2013

coisas de casa #2 - o bule perfeito


Pode não ser o mais bonito, mas é sem dúvida funcional.

via Ikea

 
 
 

Este bule de vidro chama-se Riklig, e encontra-se na Ikea.

Sou impaciente. Gosto de coisas simples e práticas.
Gosto de chá. Prefiro os que se vendem em folha, porque gosto fazer as minhas proprias combinações de plantas, seja para aproveitar as suas propriedades, para realçar sabores, ou simplesmente porque me dá na veneta.
Sou hedonista -  prefiro passar mais tempo a apreciar o sabor e o aroma do chá, do que a reunir todas as pecinhas e porcelanas para um contexto mais tradicional.

O depósito interior, onde se colocam as folhas de chá não poderia ser mais fácil de retirar, e isso contenta-me. A vida e o mundo já são complexos q.b., não há pachorra para uma declaração de guerra por parte dos objectos que se tem em casa.

Os últimos chás que experimentei são da Starchild e podem ser adquiridos na Ishtar. Recomendo vivamente!





coisas que me irritam #5 - Os Vampiros Emocionais


Irritam-me as pessoas que parecem transportar, para onde quer que vão, uma nuvem negra e tempestuosa, carregada de mau tempo, eternamente pairando sobre si.

São as pessoas que mal nos cumprimentam, encurralam-nos com um monólogo interminável e agressivo sobre todos os males da vida, sobre a vida de quem parece só existir males. Frase após frase, vão debitando sobre o emprego, a casa, a família...

(Não confundir com o diálogo natural entre amigos, em que se trocam confidências e conselhos, em que há dias mais e menos alegres que se reflectem nos discursos, fortalecendo os elos que nos ligam.)

E como é longa a lista de queixas sobre os colegas, os superiores hierárquicos, os filhos, a cara metade. Como é insuportável a família até ao 50º grau de parentesco, a tal vizinha, a rotina da vida, o estado da nação, o resultado do futebol, o sabor do café, a parangona do jornal, a conta do supermercado!

E nós, estúpidos reféns da educação, gentileza e até da empatia, a sentirmo-nos invadidos por quem ultrapassou a cortesia de nos questionar sobre o nosso bem estar, antes de tocar o mesmo velho disco riscado. Assaltados por quem nos vem roubar o tempo, a energia - porque as pessoas negativas são exaustivas - por quem nos vem chover em cima, e amargar o sabor do quer que estávamos a beber.

São pessoas tóxicas, que em certa forma e grau demonstram uma disfunção no relacionamento para consigo mesmo e os outros, que se tornaram dependentes da atenção obtida por parte dos interlocutores. São também pessoas conhecidas como Vampiros Emocionais, definição  que engloba em si vários tipos de comportamentos, e debatido no campo da Psicologia.


via Outra Medicina

 

A única solução está em sabermos como nos defender deste tipo de comportamentos. Vigiarmo-nos para não sermos nós os vampiros. Saber identificar os sintomas e ter a coragem necessária de impôr limites aos comportamentos alheios quandos estes ameaçam o nosso bem estar.
Saber dizer não, sem remorsos nem negatividade, também é uma das grandes lições da vida. Alimentar relações interpessoais saudáveis é um jogo de equilíbrio, de reciprocidade e respeito. Tal nunca significou, nem deve ser confundido, com estar totalmente disponível para o outro, colocando para segundo plano a relação que devemos cultivar connosco.

Com o tempo a lição do "não" tem-me sido cada vez mais fácil de assimilar e reproduzir. Aprendi a ter mais respeito para comigo própria e a colocar-me, muitas vezes, em primeiro lugar na minha lista de prioridades.
O reflexo dessa minha aprendizagem pode ser tão simples quanto o gesto de beber o meu café rapidamente na esplanada e vir-me embora, se aparece alguém cujo claro propósito é impor-me um desses monólogos pessimistas, onde nada se recebe em troca dos nossos ouvidos, da nossa atenção, do nosso tempo, da nossa energia a não ser uma dor de cabeça.


Mais sobre vampirismo emocional, aqui. e aqui.




As pessoas de quem gosto #2



imagem via Pautas e Linhas
 

Gosto de quem entende que a Reciprocidade é essencial nas relações.


"A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro."

sábado, 18 de maio de 2013

coisas de casa #1



Existem alguns pequenos electrodomésticos que, para mim, se tornaram indispensáveis.
A liquifidificadora é um deles.

Graças a este pequeno e pouco dispensioso aparelho pude substituir os sumos embalados cheios de conservantes, por sumos naturais feitos no momento.

Jamie Oliver
 

As vantagens são muitas: para além de ser divertido fazer experiências com as frutas, testar novas combinações, o facto de se usar somente fruta fresca, sem aditivos e sem adição de açúcares, nota-se no sabor e certamente na saúde.

Ao optar-se pela liquidificadora ao invés de uma máquina de sumos, não se desperdiça a polpa da fruta.

Não dá trabalho algum a não ser descascar a fruta, e o recipiente lava-se facilmente num minuto.

É igualmente uma opção ecológica, visto que ao fazer-se em casa os sumos naturais, ou até batidos, deixam de haver embalagens para reciclar.

É  também uma forma de aproveitar a fruta mais madura.

E quem pensa que este pequeno electrodoméstico só tem um único uso, engana-se! Existem muitas receitas, inclusivé de bolos, molhos, mousses, e outras que se fazem em poucos minutos.



coisas que gosto: Oud


O oud, também conhecido como ud, ut, entre outras denominações, dependendo da área geográfica, é um instrumento de cordas (cordofone) em forma de pêra, finamente decorado.
O seu som é distinto, pleno de alma, equilibrado, prenhe de timbres que evocam profundos estados de espírito.


Oud
 

No final do séc. IX, o matemático, filósofo, astrónomo, músico e poeta genial - Ziriab - fundador do primeiro Conservatório de Música da Europa, em Córdoba, Espanha, afirmava que o Oud era uma criação divina para que, com as suas quatro cordas, o Homem pudesse conhecer os quatro sons do Universo, através dos elementos de água, ar, terra e fogo. Igualmente afirmava, que a quinta corda, mais tarde acrescentada, servia o propósito de dar à Alma o seu timbre.

 
O jardim de Ziriab - miniatura do séc. XVI
 

A sua origem é desconhecida. No entanto, congéneres deste instrumento já eram conhecidos de civilizações da Antiguidade, tão dispersas geograficamente entre si, quanto a Egípcia, Romana, Grega, Persa, Bizantina, Chinesa, Búlgara...

Amplamente usado na música do Médio Oriente, o Oud tem a sua versão europeia no Alaúde, este último introduzido na Europa por volta do séc. XII, fruto do contacto entre cristãos e mouros. No entanto, acredita-se que este já existisse em Portugal e Espanha desde o séc. VIII, o século da Invasão Mourisca.

Não tardou muito que este instrumento se tornasse essencial nas composições musicais europeias, especialmente nos séculos XVI e XVII.

 
Caravaggio - O Tocador de Alaúde, de 1595

Na Europa Ocidental o alaúde caiu em desuso no séc. XVIII. Fenómeno que não se verificou, felizmente, nas tradições musicais do sudeste europeu, norte da África e Médio Oriente.

Graças ao Romantismo, e ao sentimento de Medievalismo cultivado, houve um renascer do interesse pelo alaúde, ao longo da Europa a partir de 1900. Actualmente, esse interesse cresceu exponencialmente, permitindo-se prever que, tão cedo, este som característico do alaúde não se silencie.


Alaúde Renascentista
 
 
 
 
John Dowland - Sir John Smith (alaúde renascentista)
 
 


Oud

 
Música de fusão guitarra vs oud

terça-feira, 14 de maio de 2013

coisas de pensar: 485


O valor do salário mínimo nacional é um tema recorrente, debatido com frequência em todos os meios de comunicação. Assistimos ao sazonal braço de ferro entre a confederação da indústria e os sindicatos, à interpretação e reinterpretação do tema por vozes da política, da economia, da esquerda à direita.

Em Abril saiu mais uma notícia sobre o possível aumento do SMN para os 500 euros, ainda neste ano.

Esta é a minha resposta à mesma:

O valor de um salário não está no seu valor nominal, mas no poder de compra que este permite.
Não nos devemos esquecer que, acima de tudo, o dinheiro existe para satisfazer o seu primordial papel como moeda de troca - logo o seu valor não existe em si mesmo, mas nos bens que obtemos nessa permuta.

Acreditem ou não, nesta discussão particular, o facto do valor do SMN estar estacionado em 485€ é de todos o mais irrelevante. O cerne da questão reside na relação díspar entre este e o custo de vida.

Outro factor, a meu ver essencial, é o quanto a maioria das pessoas está dependente do seu salário, não possuindo outra qualquer fonte de riqueza complementar. Em poucas décadas tornámo-nos bichos urbanos, terciários. Esquecemos o hábito da pequena agricultura de subsistência e de outros lavores que poderiam, em qualquer altura, significar um acréscimo à prosperidade das famílias, uma rede de segurança, cujos frutos são seguros, imunes às flutuações do sistema económico.
Ao invés disso, ao estarmos total e unicamente focados no emprego e nos frutos deste, tornámo-nos imensamente vulneráveis, reféns e joguetes dos vários agentes dos mercados.

Porque a raíz do problema não reside no valor nominal dos salários, mas no próprio sistema económico.

Quando nasci, em 1979, o SMN tinha o valor de 37.4€ - se preferirem, sete mil quatrocentos e oitenta escudos. Mais coisa, menos coisa, o que gastam hoje em dia, duas pessoas numa refeição num qualquer restaurante mediano.

O porquê de tamanho aumento do custo de vida, dos preços, é uma questão para a qual ainda não obtive uma resposta satisfatória.

Mais uma vez, o problema não reside no valor nominal dos salários. 485€ seriam perfeitamente adequados e dignos se com 60% dos mesmos fosse possível a um qualquer indivíduo cobrir as despesas referentes a aquisição de habitação, transporte, as despesas com alimentação, água, electricidade, gás, comunicações, assim como o básico com educação e saúde. Tudo aquilo que consideramos, na sociedade contemporânea, como parte da lista de bens e serviços essenciais a uma vida condigna e integrada, de forma bem sucedida, na sociedade.

Será de estranhar então que me ria, com todo o desdém que o meu mau feitio dita, quando leio sobre aumentos na ordem dos 15€?
Quando para fazer face ao custo de vida actual, garantindo a dignidade que qualquer trabalhador merece, o SNM teria que subir para cerca de 1200€?!
 E, mesmo que isso fosse possível, tal medida só teria um impacto positivo na sociedade se se congelassem os preços dos bens e serviços essenciais, situando-os nos valores correntes por um período longo e indeterminado.


A evolução do salário mínimo em Portugal aqui




sábado, 11 de maio de 2013

O meu avô e a reforma agrária



A genética maravilha-me. Não que eu seja uma cientista, ou uma grande entendida na mecânica da coisa. Mas sou uma pessoa observadora, pelo menos no que toca às pessoas, e reconheço em mim, traços que claramente herdei. E mais do que os traços fisionómicos, são as heranças psicológicas, os traços de personalidade e carácter, que me deixam deslumbrada, todas as vezes que penso na complexa perfeição da Natureza e da existência.

Quando recordo o meu avô Francisco, automaticamente lembro-me de como era amigável, de riso fácil, da sua ligação com os animais. E esta magia da genética, faz com que eu reconheça esses mesmos traços no meu pai e, por sorte, em mim também.

Há uma linguagem secreta, própria, em todas as famílias. Eu e o meu pai apreciamos muito os nossos diálogos, conversas que giram há volta de política, de economia, de senso comum. São os nossos momentos, em que nos revemos um no outro. Estreita ligação entre pai e filha, comunhão de carne, sangue e mente.

Há tempos, num desses episódios, o meu contou-me um episódio com o meu avô, que me comoveu imensamente, e me encheu de orgulho.

Após o 25 Abril, não tardou muito que a Reforma Agrária também chegasse à terra dos meus avós paternos.
Embora na teoria o propósito deste movimento fosse inspirado num nobre ideal de justiça e igualdade, visto que o grande objectivo era libertar os trabalhadores do campo de um cenário de feudalismo impróprio para a condição humana, outorgando-lhes alguma constância e estabilidade. Para acabar com a miséria, com a fome, com a exploração.
A verdade é que tudo o que existe pela mão do Homem será, inevitavelmente, tão imperfeito quanto a nossa condição humana. Sem excepções.
Andaria o meu avô Francisco nos seus cinquentas, cinquenta e picos, quando a reforma agrária chegou a Vila de Frades.
Vila linda do concelho da Vidigueira. Vila de Vasco da Gama e de Fialho de Almeida, dos meus avós, do meu pai, depositário de valiosas memórias de infância...


Em nome do movimento vieram pessoas de Lisboa que levantavam os punhos gritando palavras de ordem. Tinham vindo para ensinar Abril às gentes do interior, para ocupar latifúndios, para organizar uma massa de gente em cooperativas agrícolas.
Tinham vindo também eles para trabalhar nos campos, sem saber nem procurar saber nada do que a terra exige. Agiam arrogantemente, como se não houvesse nada que saber. E as searas empobreciam, e os animais perdiam peso, porque somos nós que temos que respeitar os horários da Natureza, e não esta que se curva a um horário de escritório.

E se durante a ditadura havia censura, Abril não foi assim tão diferente.
Ai de quem verbalizasse uma crítica, ai do incauto e atrevido "infiel" - aliás, acho que só agora, passados quase 40 anos, (que os cabeças de cartaz dos anos 70 hão-de bater as botas mais dia menos dia), é que nos sentimos à vontade para apontar os erros não olhando a quem ou a quê, sem sermos marginalizados ou apontados de fascistas ou comunistas.

Nas mãos daquela gente, o gado era levado aos pastos durante as horas de calor. Como resultado, os animais não comiam. Foi o meu avô, homem do campo em toda a sua nobreza, que salvou todos aqueles animais, agora pele e osso, de uma morte certa à fome e à sede, retornando-os aos pastos pelas regras da Natureza.

Contou-me o meu pai, que o senhor meu avô, passou à porta de uma das reuniões do comité da reforma agrária, e gritou-lhes a plenos pulmões - "malandros!". Que quem ama a terra e os animais não se deixa ficar mudo nem quieto.
Contou-me o pai, hoje com mais quarenta anos em cima mas com uma indignação parada no tempo, que isso valeu ao meu avô uma retribuição violenta, sem qualquer respeito pela sua idade. Rematou com um incomensurável orgulho, que eles sendo muitos e mais novos, o meu avô Francisco ainda deu luta e retalhou a perna a um, com a sua navalha.

E nesse instante, lembrei-me de mim mesma, que aos 8 anos defendi um rafeiro, colocando-me entre ele e uma turba de miúdos de pedras na mão. E aos 33, percebo que o meu avô não morreu, vive em nós nos traços que partilhamos, através da magia da genética, no adn da alma.








quinta-feira, 9 de maio de 2013

O choque eléctrico


Hoje o meu dia começou mais cedo que o costume. Quando tocou o primeiro alarme do telemóvel em jeito de despertador, já eu estava à espera que me atendessem numa sucursal da Edp.

Parti de casa bem cedinho, com uma pasta onde levava facturas actuais, antigas, alguns documentos, um bloco de notas e até uma calculadora. Porque quando vou à guerra gosto de ir preparada.

É que ontem, ao olhar para a factura da electricidade ia-nos dando a travadinha. Primeiro, a sensação de incredulidade que se tem ao olhar para o valor cobrado, uma exorbitância!
O verdadeiro choque eléctrico fez-se sentir após uma minuciosa análise da factura - uma das parcelas, referente a um período de somente cinco dias, acusava um consumo energético superior ao que gastamos em dois meses!


Em minutos, passámos de atónitos a pensativos - mas que raio andámos a fazer nessa semana?!
E a conclusão foi, nada. Nada de diferente, nada que justificasse algo assim.
É que para consumir aquelas centenas de kilowatts em cinco dias teria que se ter passado algo de extraordinário por aqui - no mínimo uma rave com um grandioso espectáculo de luz e som e, não posso dizer que tal tenha ocorrido.

A seguir, vem a indignação. Sim, porque somos daquelas pessoas que teimam em cultivar, na medida do possível, (que isto é uma casa de família e não um mosteiro franciscano), a nossa versão de equilíbrio entre conforto e consciência económica e ambiental.

Sempre tivemos a preocupação de escolher electrodomésticos com uma elevada eficiência energética, usamos lâmpadas economizadoras, temos os equipamentos ligados a tomadas múltiplas com botão de corte de corrente, e todas as noites, temos o cuidado de as desligar para evitar os consumos escondidos dos aparelhos. Não temos equipamento de ar condicionado, e só recorremos a aquecedores ou ventoínhas quando se torna desagradável não o fazer, sempre que possível lavo a roupa a 40º, e não tenho feitio para ocupar serões a passar a ferro. Não temos o hábito de ter tudo ligado ao mesmo tempo - ou está a ser usado, ou então, desliga-se.
Temos todos estes cuidados, e ainda outros, e é natural que nos indigne receber uma factura assim.

Fomos logo comparar com o valor do contador e lá estavam, todos aqueles watts como consumidos. O que não pode mesmo ser!
Encontrei através do google, várias queixas sobre contadores traidores, inimigos da sua família, que por defeito originavam facturas astronómicas. Com a simples troca de contador, várias pessoas viram a sua conta da luz passar para menos de metade, sem qualquer restrição da sua parte no uso dos equipamentos da sua casa.

Desde ontem à noite que andamos lunáticos em volta do contador. Hoje já fui espreitá-lo uma meia dúzia de vezes, a ver se o apanho com a boca na botija.
Na realidade, ontem fizemos um teste. Entre a hora do jantar e hoje de manhã, intervalo em que agimos de forma exactamente igual a todas as outras noites, gastámos 2 kw. Experiência que comuniquei à comercial que me atendeu.
Pois é, se numa noite normal gastamos 2kw, expliquem-me então como se justifica um dispêndio de sessenta vezes mais.

Ficou o diagnóstico do contador marcado para amanhã. A ver vamos o que isto vai dar...



terça-feira, 7 de maio de 2013

Coisas que me irritam #4


Os discursos em que os sucessos, as vitórias, as boas acções, os actos de mérito e valor são sempre "meus" e "nossos", enquanto a responsabilidade, o peso de tudo o que é errado e torto, no país, no mundo, na vida, não pode ter outra origem que não os "outros".  E como abundam os apontares de dedos entoados às terceiras pessoas.

 
Pondero seriamente, na minha ignorância de pessoa terceira que tem a mania do compromisso matrimonial para com as coisas - em que se partilham os bons e os maus momentos - como é possível que, com tantos iluminados por aí, os problemas do mundo não tenham ainda solução?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Coisas de pensar - Os manuais escolares de amanhã



Gosto de tecnologia pelo mesmo motivo que gosto de um sem fim de outras coisas, demasiadas para enumerar aqui e agora. E esse motivo é o seu potencial.

Gosto de tablets, e quando penso nestes, não só me ocorre todo um universo de novas expressões, tão recentes quanto a própria tecnologia, que já ganharam espaço no nosso vocabulário e na nossa vida quotidiana como app's e cloud, mas vislumbro, imagino algumas das suas possíveis aplicações.

Ultimamente quando penso em tablets, penso em manuais escolares. Os mesmos que ainda há semanas eram o objecto de algumas parangonas nos jornais, onde se noticiavam os preços dos mesmos - acima da inflação, demasiado elevados para muitas famílias, onde o orçamento familiar é cada vez mais reduzido e obriga a uma gestão mais do que rigorosa, quase de carácter milagroso.

Acredito que as nosso sistema de ensino necessita de uma reestruturação profunda e isso passa, inevitavelmente, pela temática dos manuais escolares.

Se quisesse fazer uma introdução à história do manual escolar em Portugal, de uma forma extremamente resumida e simplista, diria que passámos do oito para o oitenta - do manual único dos tempos da ditadura, com tudo o que isso implica, para o cenário comtemporâneo marcado sobretudo pelo mercantilismo. Onde todos os anos lectivos, ou quase, a oferta em termos de manuais é marcada pela introdução de novos títulos, tornando os livros do ano interior obsoletos, totalmente descartáveis, impossíveis de reaproveitar na mão de novos alunos.

Tudo porque as editoras prosperam sobretudo, (como acontece com todas as empresas em todas as áreas de mercado), se a vida útil dos produtos for curta, para que as pessoas se vejam obrigadas a comprar o mesmo produto, numa frequência cada vez maior.

Imagino um futuro próximo onde ao invés de pilhas de livros e mochilas pesadas, os alunos acedam a todos os manuais escolares, livros de apoio, dicionários e afins através de um tablet. O papel fica reservado aos cadernos onde se treinam a caligrafia e o desenho.

Sim é possível e é, sem qualquer dúvida, mais acessível para as famílias. Que pelo preço de dois dos manuais mais caros compra-se um tablet!

Imaginem, ter todos os vossos manuais - não só daquele ano lectivo, mas de todos - armazenados na cloud, possíveis de serem consultados em dois cliques. Imaginem o fim do ritual da compra dos manuais - as reservas dos mesmos, os atrasos, o preço. Sim, o preço - porque sendo a impressão colocada de parte, os custos do fabrico de cada manual seria reduzido exponencialmente, logo também o seu preço.
Os professores também veriam a sua tarefa mais simplificada - a formalidade quase impossível a que estes são obrigados para requisição de material de apoio às aulas, (porque nunca há leitores de cd's ou retroprojectores suficientes numa escola para cobrir minimamente as necessidades e os desejos de todos), seria coisa do passado.
Se cada aluno tivesse um tablet, o acesso aos conteúdos multimédia poderia ser feito sem limitações, logo as aulas seriam mais interessantes, ricas em forma e conteúdo, apelativas, tanto para os alunos como para os próprios docentes.
Estes veriam multiplicada a escolha de conteúdos ao seu dispôr - não estariam presos a um só manual da disciplina, mas poderiam optar pela melhor oferta de conteúdos de capítulo em capítulo.
Seria o fim das faltas de material e das mochilas pesadas.

O papel das editoras continuaria a ser o mesmo - a elaboração e venda de manuais, mas noutro formato.

E é também nisto que penso quando pego no tablet - no potencial das salas de aula de amanhã.













sexta-feira, 3 de maio de 2013

As pessoas de quem gosto #1



Há um casal de octogenários, o sr. R e a dona M., que frequentam o mesmo ponto de encontro que eu. Todos os dias , à mesma hora, sem nunca faltar um aceno, um sorriso, um cumprimento jovial.
São genuinamente simpáticos. Especialmente o sr. R. que não se acanha em partilhar histórias da sua vida, que eu eu ouço com atenção e verdadeiro prazer.
Relatos de uma juventude num Campo de Ourique que já não existe, não como era. Dos bailes, das cortesias e de outros costumes, dos companheiros, e que na minha imaginação associo logo aos filmes com o Vasco Santana e o Ribeirinho.


Hoje ao final da manhã, o sr. R. trazia algo para me mostrar. Uma foto dos seus tempos de pugilista amador, em pose aprumada e rigorosamente equipado. Dentro da mesma capa, a divisa de um oficial americano, que lhe tinha sido dada como prova de grande estima e amizade, dos tempos em que trabalhou numa base americana.
Passados tantos anos, esta continua a ser ainda uma história sem o desfecho merecido: quando um colega informou o sr. R. do significado contido no gesto daquele oficial americano, este já tinha partido. Ficou o meu amigo R. ainda hoje, com uma maior palavra de gratidão por expressar.

Penso se posso fazer algo. Gostaria mesmo de lhe dar essa alegria.








quinta-feira, 2 de maio de 2013

Quando a esmola é muita...



Esta história que aqui partilho é verídica. Terá certamente a utilidade de servir de aviso, provavelmente aos que agora são mais novos e incautos, para que saibam que alguma desconfiança é benéfica. Que a sabedoria dos antigos adágios continua a prevalecer verdadeira - neste caso, aplica-se que "quando a esmola é muita, o cego desconfia".

Estávamos em 2004. Faltavam meses para concluir a minha licenciatura. Dizer que andava exausta, tanto física como psicologicamente, era pouco. Para além de todos os trabalhos, exames e coisas próprias da vida de estudante, a ideia de conseguir trabalho dentro da minha especialidade parecia cada vez mais distante e inatingível.
Trabalhava para uma pequena empresa, a troco do ordenado mínimo e a recibos verdes. A grande vantagem é que tinha conseguido negociar um horário suficientemente flexível para conciliar com as aulas. Mas era algo provisório e, estava muito longe de se assemelhar ao sonho de trabalhar numa das grandes agências de publicidade como copy.
As mesmas grandes agências que eu sondava há anos, sem qualquer resultado tangível e promissor.

Um dia recebo uma chamada inesperada. Era o meu amigo F. que estava também a concluir o mesmo curso que eu, mas noutra universidade. Trazia uma grande novidade - sabia de uma possível oportunidade de emprego na nossa área, com condições bem acima da média, e não me quis deixar de fora.
A universidade dele tinha sido contactada pelo recrutador de uma nova empresa. A turma do F. iria estar em peso nas entrevistas. Fiquei grata pelo contacto. É algo demolidor ver o entusiasmo natural que se tem ao concluir um curso, esmagado pela incerteza e pela ideia de sair da universidade directamente para o desemprego.

Ainda pelo telefone, o F. indicou-me que o primeiro passo seria encontrarmo-nos com o tal recrutador algures no piso da restauração dos Armazéns do Chiado, no dia e hora X.

Achei estranho, mas segui as indicações à letra. Esperei sozinha numa mesa, enquanto sondava todos em meu redor. Numa mesa mais afastada, num intervalo sistemático de alguns minutos, havia quem se levantasse, dando lugar a um novo interlocutor. Não era preciso ser o Sherlock Holmes para adivinhar que se tratava do indivíduo que me entrevistaria e de alguns dos candidatos.

Chegada a minha vez, dirigi-me à mesa. A conversa foi breve. Falámos de publicidade e trocámos contactos. Disse-me que se recebesse uma mensagem com os detalhes para uma nova reunião, então significaria que tinha passado, com sucesso, a primeira fase da entrevista. Achei estranho o meu entrevistador ser tão jovem, a localização e a brevidade desta primeira entrevista.

Eu e o F. trocámos uma imensidão de mensagens e telefonemas durante os dias seguintes. Estávamos expectantes e foi um alívio quando ambos recebemos a tão esperada mensagem, com os pormenores da segunda fase da entrevista.
O F. deu-me boleia até ao Rato. Éramos dezenas a ocupar o mesmo ponto de encontro. O tal indivíduo, o jovem madeirense, chegou a pé e guiou-nos até um espaço que de momento era um parque de estacionamento subterrâneo, mas que segundo o seu discurso, após uma reestruturação monumental seria a sede da empresa, o nosso futuro local de trabalho.
Falou em salários que rondavam os 2000 ou 3000 dólares, em gabinetes privados com casa de banho privativa, em fardas Xpto desenhadas pela Fátima Lopes com jóias a condizer para "fazer bonito" nas reuniões, em sistemas informáticos high tech.
E o meu grilinho - chamem-lhe intuição, bom senso, o que quiserem - cantava cada vez mais alto nos bastidores da minha mente. E todas aquelas dezenas de jovens como eu, eufóricos com esta oportunidade de sonho, e eu à parte, desconfiada e a sentir-me a maior das cínicas, porque não sabia dar valor à sorte quando esta me batia à porta.

Falou da obrigatoriedade de viajar, em especial para os Estados Unidos, durante períodos que chegariam a semanas a fio, que partilharíamos o quarto de hotel com a nossa equipa para poupar nos custos.
Mais material para o meu grilo roer. Bicho raro esse, pois toda a gente à minha volta parecia estar envolta num manto de entusiasmo.

Passaram algumas semanas até à última reunião. Esta no Estádio da Luz, num qualquer café que existe lá dentro.
Naquele dia a minha paciência não era muita, muito menos para os joguinhos psicológicos daquele gajo.
Hoje a estratégia era voltar a dividir os candidatos, a ter curtas conversas individuais. Topei-o.
Comentava com um pequeno grupo as minhas desconfianças, como me faziam falta mais detalhes, mais informação, tudo preto no branco, e quase que era fuzilada por um coro de "shhhhhh" , "tem cuidado, não queremos ficar sem emprego".

No nosso tête a tête, falou-me do quanto me queria na equipa, de como tínhamos que ser um grupo coeso, uma família e que para isso, era imprescindível que nos reuníssemos todos num retiro para criar laços. A minha expressão estava muito longe do entusiasmo cego que ele esperava - daquele que nos faz aceitar tudo com vigor. Na verdade, eu saltitava entre o modo "tirar-lhe as medidas" e o "raio fulminante". E isso apanhou-o de surpresa.

Depois da abordagem individual com todos os candidatos, comunicou ao grupo, numa imensa exaltação, que o destino do retiro seria o Brasil. E começa uma onda de histeria colectiva, para todos os lados, excepto o meu. De repente um momento de solenidade - haviam duas grandes condições: tínhamos que aceitar naquele exacto momento e, ou íamos todos, ou não ia nenhum.
O meu grilo neste momento era o instinto dos sete instrumentos e gritava a plenos pulmões.
"Com que então pressão colectiva, filho de uma grande p***" - pensei eu.
Na minha cabeça teciam-se esquemas de correios para tráfico de drogas, tráfico de orgãos ou escravatura. Já nos imaginava algures, indefesos, afastados da família, ou até mortos.
E aquele bando de idiotas a festejar! Seria a única a ver as inúmeras incongruências de tudo isto?!

Topámo-nos mutuamente, medimo-nos e ele avançou. Toda aquela gente à nossa volta, e ele a pressionar-me para aceitar as condições, todas elas.
Eu mantinha-me na minha - não tinha passado anos a tirar um curso para me pisgar para o Brasil, semanas antes da última época de exames, para ir beber caipirinhas com estranhos. É possível fazê-lo em Portugal - replicava eu.
Soltei a franga - que não cedia a pressões, que desconfiava daquilo tudo, e onde é que é a sede da empresa, que quando a esmola é muita o cego desconfia, e que se me obrigam a decidir no momento, a minha resposta será "não", sem volta a dar. Que me cheirava a caso de polícia. E que se fossem todos lixar!

Virei costas e fui-me embora.
Nunca mais vi a turma do F.
Nunca ninguém voltou a ouvir daquele indivíduo.
A mãe do F. de Angola telefonou para a minha mãe, e falaram demoradamente sobre o sucedido.
Ouvi dizer que tinham feito queixa na polícia. Ainda bem que ganharam juízo. Tenho a certeza que não era coisa boa, ao certo não sei dizer o quê, mas o meu grilo é de confiança e nunca me mente!






Coisas que me irritam #3



Um dia destes acompanhei uma amiga numa visita relâmpago a um dos muitos espaços de alma burocrática, onde desempregados e funcionários vivem para uma constante troca de palavras e papéis.
Um minúsculo espaço dividido entre sala de espera e dois guichets.
Meia dúzia de pessoas ocupavam dispersas as cadeiras de um laranja forte, à espera do momento que culminaria, inevitavelmente, na tal troca de palavras por papéis, e uma nova data para uma segunda e uma terceira, e uma enésima troca de papéis por palavras, de papéis por outros papéis.

E eu, que nada percebo destas trocas, fiquei de pé num canto, à espera da minha amiga, observando com discrição e minúcia. E o que vi, torna-me grata pela curta duração da minha estadia naquele cubículo.

Varri com o olhar as formas e as cores, a quase materialização do silêncio, não fora uma criança irrequieta e a sua mãe. Vi as pessoas, as suas faces, as suas mãos ocupadas com papéis, e nada disso me incomodou. Até que a vi. E tudo o resto passou para segundo plano.

Era uma mulher, nos seus vintes ou trintas, e passaria despercebida não fora o seu incómodo, silencioso mas palpável, em relação ao petiz irrequieto que lhe invadia o espaço pessoal.
Li-lhe a postura - abraçava a mala e os pertences, os cabelos longos serviam de esconderijo ao rosto e os olhos focavam um ponto de nenhures, fugindo de qualquer contacto.
E o fedelho, que saltitava e o diabo a sete na cadeira ali mesmo ao seu lado, demasiado próximo, demasiado incómodo, invasor do seu desejo de invisibilidade. E as suas costas que se iam curvando cada vez mais, a cada estridência do miúdo, que imaginei por momentos que esta mulher se iria transformar em tartaruga e recolher-se finalmente ao conforto do isolamento no interior da sua carapaça, ou que iria desaparecer de vez, absorvida pelo plástico laranja da cadeira.

Decidi não ver mais nada. Foquei toda a atenção na ponta dos meus sapatos.
Estava irritada. Tinha-se acendido o Vesúvio que mora na minha barriga e interiormente crispava-me, ardia, maldizia todas as coisas que nos pesam e nos fazem andar de costas curvadas, que nos roubam a vontade de sorrir, o brilho do olhar, e até o mínimo de confiança que nos permite dizer a um puto que se cale e se ponha quieto, se assim nos apetecer.

Mais do que irritada, estava frustada. Por ela. Por mim, por não ter qualquer poder para lhe pintar com cores felizes o semblante e a existência.