sexta-feira, 21 de julho de 2017

coisas de opinar: Até à próxima, Chester, ou os sapatos dos outros.


Não demonizo o suicídio, nem quem se suicida. Aliás, sempre me chocou como os suicidas são ostracizados pelas religiões, por quem clama ter uma linha directa para com o divino e que teriam a obrigação de ser a candeia do amor incondicional.
Obviamente que também não o celebro nem o incentivo, - a vida deveria ser uma benção, uma vitória e um motivo de celebração. Mas, haverá algo pior e mais digno de ser lamentado do que estar cá, estar vivo mas só aparentemente?

Portanto entendo, empatizo e respeito. E sobretudo por isso não teço juízos de valor, mas sinto a necessidade de vir para aqui, (e desculpem a falta de humildade), abordar este tema pouco simpático, porque sinto que é necessário esclarecer que quem parte nunca o faz abruptamente, que não o faz por desamor à vida, mas sobretudo, presumo eu, pela urgência urgentíssima de um novo começo, uma nova vida, uma nova encarnação, na esperança de uma nova oportunidade, da mesma forma como se faz reset ao computador.

Sim, lamentemos todas as partidas. Mas troquemos o julgamento pela compaixão. Diz um ditado que nunca poderemos saber como é a vida de alguém até andarmos nos seus sapatos. Se isto fosse realmente fazível, acho que chegaríamos à conclusão que todos os sapatos são diferentes, e se há quem pareça ter um andar fraquinho, desajeitado, diferente, se calhar é porque a vida lhe serviu sapatos de chumbo.

A todos aqueles que decidiram partir mais cedo, desejo-vos que realmente existam novas oportunidades, e que a vida nunca mais vos dê dores de pernas.

A nós que ficamos, vamos lá construir um mundo onde possamos andar descalços, sim?






terça-feira, 18 de julho de 2017

Sabedoria dos intas em 10 segundos #43


Por cá não mora gente ciumenta. Por cá mora quem não tem pachorra para com gente ciumenta.

Não me canso de dizer que ciúme não é uma qualidade afectiva, mas um nariz ranhoso, uma dor de cabeça, uma obstipação. Ou seja, um sintoma que demonstra que se sofre de um, dois ou dos três seguintes males:
1) Imaturidade emocional;
2) Doença psicológica;
3) Presença de pessoas tóxicas;

Não vale a pena aprofundar as duas primeiras alíneas.
Quanto à terceira, a cura passa por uma dieta. Tão simples quanto isto:
- Se sentem que têm motivos para ter ciúmes porque a pessoa com quem estão não é efectivamente de confiança, então porque estão com alguém em quem não podem confiar?
- Se no vosso círculo social existe aquele/a cromo/a que se esquece do mandamento fulcral que dita que pessoa comprometida passa a ser assexuada, e gosta de mandar charme a torto e a direito, qual barro contra a parede, não acham que já têm idade para saber escolher melhor os/as amigos/as?

O mundo divide-se também na perspectiva que se tem sobre os ciúmes. Há quem diga que é especiaria que apimenta a relação, eu digo que não é mais nem melhor que pimenta no cu.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

cromices #150: Arigato, merci, thank you



Uma pessoa adapta-se a tudo, inclusive a contornar situações que só sucedem a quem vive numa zona considerada turística.
Em passeata nocturna com o Kiko pela zona do centro histórico, (onde as ruas não são ruas, mas vielas estreitas de declive acentuado, forradas numa calçada portuguesa tão luzidia e encerada pelos milhares de pés que a atravessam que são um autêntico escorrega, cuja travessia com cão exige já um nível proficiente de destreza se o objectivo não for derrubar turistas aos magotes, como numa partida de bowling humano), a pessoa vê a alguns metros de distância que a estreita via está intransitável. Bloqueada por um tampão de gente, de dezenas de turistas, que não andam nem deixam andar.

Uma pessoa ainda fica ali parada uns instantes, com a esperança que alguém perceba que tem que se desviar. Mas não, é pedir muito.

Como uma pessoa quer e tem que passar, pois quanto mais tempo na descida encerada aumenta em muito a probabilidade de perder um par de dentes, há que ser despachada. Então quase sem qualquer esforço da minha parte para fazer uma voz sonante, que tenho bons pulmões e devo ter engolido um microfone, solto um "com licença, excuse me, excusez-moi, dá um jeitinho" - assim mesmo, de rajada, enquanto vou furando a multidão.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

sabedoria dos intas em 10 segundos #42: Quando em Roma, sê como Nero, ou as filhas de Marte.



Há tempo para a paz, e há tempo para a guerra. E mesmo que pareça o maior dos contra-sensos, momentos há em que não há nada como a guerra para nos trazer paz.
Um dos erros mais grosseiros das pessoas comuns é a fatal húbris em contar que seja sempre o mesmo a aparar as falhas, a chegar-se à frente quando quem o deveria fazer não o faz. Pensam que quem é correcto nunca o deixará de ser, porque é um apelo maior da sua natureza, mesmo que quase sempre isso implique sair lesado.
Nem nunca se imagina que a pessoa do costume mude de jeito, de maneiras, de coração. Aliás, qualquer mudança seria levada muito a mal, especialmente por aqueles que são sempre parte do problema, e nunca da solução.

Até que há um dia, em que se cheirando o fumo e adivinhando o fogo, a pessoa do costume decide ser como Nero, e deixar arder. Burn, motherfucker, burn!

E o que pode ser entendido como loucura, é da lucidez mais profunda.






segunda-feira, 3 de julho de 2017

Vida de cão: Auto-controlo



A três meses dos 3 anos, o Kiko está um menino crescido e já dá lições de auto-controlo.

Marido coloca-lhe à frente o prato onde repousavam dois suculentos bifes. Estoicamente, nem por um segundo ameaçou ir contra o comando que o "paizinho" lhe havia dado de "só cheirar".

Não fosse o espanador a rodar a 100 à hora, ninguém diria que ele gosta de bife.

coisas do condomínio: coisas que me custam horrores...



Acabei de colar no átrio mais um "recadinho". Desta vez sobre o não pagamento de quotas.
Se há coisa que me custa horrores é esta, por dois grandes motivos.

Primeiro, exaspera-me a sensação de ter que andar atrás de pessoas adultas, como se de crianças se tratassem, para que cumpram o mais básico dos deveres para quem habita em condomínio - o pagamento das quotas a tempo e horas. Com a agravante de todos terem passado pelo papel de administrador, logo terem sentido na própria pele o stress de ter que lidar com esta mesma situação.
Repetirem os comportamentos de que se queixavam é o cúmulo do non-sense, para não dizer outra coisa, e é algo que me faz muita confusão.

Em segundo, não tenho feitio nem à-vontade, não aprecio e causa-me um enorme desconforto ter que falar de dinheiro com as pessoas. Soa mal, fica mal, é horrível e grosseiro, ponto.
Desconforto elevado ao expoente máximo quando tenho que abordar pessoas que vejo todos os dias por serem devedoras. Catástrofe total quando uma dica subtil não repercute qualquer efeito, e não existe alternativa senão ser frontal, sem papas na língua.

Até me dá um nó no estômago só de imaginar que o texto exposto no átrio possa não ser ainda assim suficiente. Se assim for terei que recorrer a cartas registadas com aviso de recepção para informar da dívida, para que sirva de prova num tribunal, e/ou bater às portas tipo cobrador de fraque.

Ai vida!

sábado, 24 de junho de 2017

coisas que gosto: Weeee, saldos para geeks!



Entrar no Steam, e ver que começaram os mega saldos de Verão. Abrir a wish list, e todos os jogos que havia selecionado estão com desconto! Weeeeeeeee!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pessoas de quem gosto: "A terra a quem a trabalha"



O sr. P. é um septuagenário aqui da aldeia.
Pertence ao cada vez maior grupo de pessoas que conheci, ou fui conhecendo melhor, graças ao Kiko e aos nossos passeios diários pelas ruas da localidade.

Cruzámo-nos num dia de Inverno, e lá fomos conversando rua acima, ao ritmo do Kiko e das suas deambulações pela relva.
O sr. P. tem um semblante amável, e uma postura escorreita que não deixa revelar a sua idade ao primeiro olhar.
Fala-me sempre da sua horta, com as nuances próprias de cada estação, e eu gosto de o ouvir, sobretudo pelo entusiasmo que coloca em cada frase, esteja a falar de couves tronchudas ou dos tomates que em meados de Junho já estão "deste" tamanho - e usa as mãos abertas para demonstrar o quão grandes são. De como uma boa meia dúzia deles já repousam no parapeito, a amadurecer ao sol.
Mal o conheci pensei cá para mim estar diante da prova viva de como o constante contacto com a terra, desde que seja genuinamente por paixão, gosto e prazer, é uma espécie de elixir da juventude. Que a Natureza retribui, com juros, a quem dela cuida.

O sr. P. mora numa das ruas limítrofes da aldeia, num aglomerado de casas abraçadas a montante por um vale. Algures nessa extensa linha de mato, fica a sua horta, num terreno - apressa-se a esclarecer - que não é seu, mas que não fosse este seu "passatempo", como lhe chama, estaria destinado ao silvado, embora tenha dono.
A última vez que me cruzei com este amigo, ainda não se adivinhava a enorme e dantesca tragédia de Pedrógão Grande, confessava-me a sua preocupação, partilhada por alguns vizinhos octogenários, perante a negligência dos legítimos donos dos terrenos que lhes circundam as habitações. Terrenos por limpar, com mato denso e silvas do tamanho de gente. De como uma sua vizinha, senhora idosa, lhe dizia que não fosse o sr. P. a passar com o trator e a limpar algum desses espaços, por sua iniciativa, usando do seu tempo e meios, o cenário seria pior.
Sublinhava que num desses espaços havia passado o trator fazia dois anos, e esse tempo bastou para que surgisse um verdadeiro matagal. Que era necessário voltar a limpar, e que não se vendo qualquer interesse por parte dos proprietários se sentia tentado a fazê-lo novamente, pensamento que leva ao justo desabafo da sua mulher: "Sempre os mesmos! Calha sempre aos mesmos!"

Contrapus que esse era o eterno dilema das pessoas íntegras e cumpridoras: ou se faz no lugar daqueles que teriam o dever de o fazer mas que nada fazem, ou se permite que o descalabro e o caos imperem com consequências para todos.

Nunca me fez tanto sentido o adágio propagandista que diz "a terra a quem a trabalha".


sexta-feira, 9 de junho de 2017

coisas de comer: Não foi amor à primeira garfada, mas hoje sou fã do conceito.



Falo dos restaurantes de buffet livre. Aqueles onde por um preço fixo e normalmente convidativo, os comensais podem servir-se sem restrições de todos os pratos, doces ou salgados, apresentados pelo restaurante.
A única regra, com a qual concordo plenamente, existe para evitar o desperdício alimentar: a quem tiver mais olhos que barriga é cobrado um extra. No último restaurante deste género a que fui o valor residia nos 18€/kg.
Este conceito veio para ficar e já existem locais que se especializaram em comida asiática, sushi, brunch, brasileira, tradicional portuguesa, etc.

Como é normal e esperado existem restaurantes melhores que outros. Os melhores serão, sem dúvida, aqueles que investem na qualidade dos alimentos e da sua confecção, na variedade, num bom serviço e no espaço. Se o conseguirem, o sucesso é garantido.

Tornei-me fã deste conceito porque este satisfaz muito mais critérios que aquela coisa de ser "enfarta-brutos". 
Penso que de todos é o que permite a fruição de uma refeição verdadeiramente casual e descontraída, sem aqueles compassos de espera que chegam a roçar o ridículo e o doloroso: aquele ritmo "senta- espera - trazem ementa - espera - fazer pedido - espera - trazem entradas - espera - trazem bebidas - espera - trazem prato - pedir carta de sobremesas - espera - trazem carta de sobremesas - espera - pedir - espera - trazem sobremesas - acaba-se de comer a sobremesa e tenta-se pedir um café - espera - pede-se café e já agora a conta - espera - trazem café - espera-se pela conta..."

No total acho que visitei um pouco menos de meia-dúzia deste tipo de estabelecimentos. O que visitei ontem na companhia dos meus pais passou directamente para o primeiro lugar da minha curta lista.

Basicamente a experiência foi irrepreensível:

- o espaço era giro, bem decorado, imaculado (inclusive as casas de banho), espaçoso (as mesas estavam à distância certa uma das outras, para que ninguém incomodasse ninguém nas constantes movimentações de e para o buffet);
- tinha estacionamento próprio;
- o serviço era organizado e rápido (havia sempre alguém preocupado em recolher os pratos sujos das mesas e a cuidar do buffet);
- muita variedade de enchidos, queijos, pratos quentes (peixes, carnes e vegetariano), saladas frias, doçaria regional e fruta;
- qualidade ( tudo o que provei, o que não foi mais que uma pequena fracção do que havia por lá, estava muito bem confecionado, o que é claramente um sinal que estes locais já não são só para quem dá valor à quantidade, mas sim também para quem valoriza a qualidade).

segunda-feira, 5 de junho de 2017

cromices #149: Se têm entre 20 e 35 anos e um nível médio de inglês, metam os olhos nisto!



No feed de uma rede social apanhei casualmente a publicação de uma revista dedicada às viagens. Esta anunciava uma oportunidade para uma dúzia de pessoas que me deixou a salivar: passar um ano a viajar; passar por 40 destinos como Honolulu, La Paz, Nova Iorque, Paris, Maputo, etc; ter todas as despesas pagas e ainda receber um salário na ordem dos 2500 euros. Em troca apenas a obrigação de relatar a experiência.

Não costumo invejar muita coisa, mas como sou humana, desta vez não consegui evitar. Caramba, pá, quando aparece algo que acho que me assentaria que nem uma luva, pimbas, estou velha demais!
Onde estavam estas oportunidades quando tinha 20 aninhos?!
Tivesse eu dado conta de algo assim nessa altura, e teria com todo o gosto tirado um ano sabático da faculdade para ir correr mundo, para além da vantagem que depois voltaria rica em experiências e com 30000 euros no bolso.

Portanto, miúdos que estejam a ler isto, avancem por vocês e em nome de todos nós, pessoas que a partir dos 36 anos são consideradas velhas!

O envelhecimento tem muito que se lhe diga. Pouco se pensa nisso a não ser que nos lembrem.

Então lá estava eu a fazer queixinhas ao marido, sobre esta cena de estar velha, e ele pergunta-me se estou melhor do braço, (no dia anterior tinha andado numa aflição por causa da tendinite).
 "Já passou." - digo-lhe.
 " Vês, então não estás assim tão velha!"
 " Pois... não fosse a dor de costas de hoje..."




sexta-feira, 2 de junho de 2017

Pessoas de quem gosto #8


Gosto tremendamente de quem possui o dom natural de entender que o instinto maternal/ paternal é algo que reside em cada um de nós, e não se dirige simplesmente aos filhos biologicamente gerados e paridos.
Que é mais universal que isso.
É a imensa capacidade de amar, de cuidar, que todos temos e que direcionamos a qualquer ser vivo que cative essa nossa faceta.
É Amor, ponto, e pode ser dirigido aos nossos filhos, aos filhos dos outros, a qualquer pessoa de qualquer idade, aos animais, às plantas, a tudo e a todos que despertem em nós esse lado. Porque o Amor na sua pura forma não cabe na caixinha pequenina que muitas vezes alguns de nós o querem enfiar, dê lá para onde der.

Também por isso, gosto da vizinha simpática que sorri para mim e me trata por "mãe do Kiko".






quinta-feira, 1 de junho de 2017

coisas do condomínio: Nunca digas nunca.


Oops, não resisti.

 Afixei mesmo um recado sobre a limpeza das áreas comuns do prédio. Na minha melhor diplomacia, usei expressões como "a intenção não é ofender nem embaraçar ninguém", "neste espaço que é a casa de todos nós" e " embora sejamos uns sortudos por poder delegar a limpeza das áreas comuns (...) não percamos o maravilhoso civismo que nos faz apanhar um papel do chão, ou ir buscar a esfregona caso...".

 Para não haver nada que apontar, e porque se lidera através do exemplo, antes de afixar o recado limpei eu as áreas comuns, com água quente e detergente xpto que limpa, desinfecta, higieniza e felizmente nos livrou daquele pivete horroroso.




coisas do condomínio: As palavras que nunca te direi.


Hoje de manhã quando saí de casa para o passeio matinal do Kiko, o meu nariz foi atacado por um pivete nas escadas. O interesse do cão no chão, maior que o costume, fez-me olhar com mais atenção e reparar num rasto de gotas, que se estendia de um dos andares superiores até à rua. Basicamente o que acontece quando o saco do lixo não veda bem e vai a gotejar.

Estou aqui com uma vontade tão grande de colar um recado na entrada que até me dá bichos carpinteiros e comichão. A parte racional diz-me que não, faz como a Elsa do Frozen: "Let it goooo".

Mas caramba, que vontadinha de deixar algo assim:

"Meus amores,

Sim, é verdade que temos um serviço contratado para a limpeza das áreas comuns, o que nos iliba dessa função e torna a vida mais fácil.
Mas, azares acontecem. Fazem parte da vida quotidiana. Nessas ocasiões, como por exemplo, ao trazermos um saco do lixo que deixa um rasto pelas escadas, não nos caem os parentes na lama se formos buscar uma esfregona para dar um jeitinho.

Obrigada"

quarta-feira, 31 de maio de 2017

coisas da Língua #2


Quando vi ou li pela primeira vez a expressão "talharia" confesso que ainda demorei um par extra de segundos para perceber que estava diante do descendente hipster do talho, vulgo estabelecimento que vende carne.

Durante esse lapso pensei que tinha surgido um qualquer novo restaurante especializado em receitas com talharim, a massa alimentícia com a forma de tiras finas. Afinal se há locais onde só se serve risoto, outros pregos, outros ainda camarão, (as opções quando nos dedicamos à exploração de um nicho de mercado são quase ilimitadas), porque não uma talharia dedicada ao talharim?
É que na minha cabeça isto continua a fazer muito mais sentido que modificar um vocábulo por uma questão de moda. Digo eu.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Coisas da Língua #1


Gosto de palavras. Mais de umas que outras, por um qualquer motivo: se numas penso encontrar um qualquer simbolismo, um enigma, outras despertam quadros, cenários, despertam os sentidos, são musicais, ou simplesmente boas de saborear, de enrolar na língua. Tudo, como de costume, ao sabor da vontade, onde a geografia e o sentido não servem para limitar.

Para iniciar mais um ramo desta árvore de deambulações, apetece-me trazer-vos os vocábulos "caregiver" e "caretaker".
Ambos significam "cuidador" em aquele que cuida de alguém ou alguma coisa. No entanto, são as pequenas diferenças que encontramos ao dissecar estas expressões que as tornam, para mim, irresistíveis.
Há anos li num livro de fantasia, se não me engano numa das obras de Úrsula Le Guin, que saber o verdadeiro nome das coisas é uma magia poderosa, que nos permite um tremendo poder sobre estas.
Ficou-me.

A grande diferença entre ambos os termos reside no facto que "caretaker" é acima de tudo aquele que cuida de algo material, de um imóvel, de um terreno, de uma coisa. Pode ser ou não da família do dono da coisa que requer cuidados, e é uma situação temporária.
"Caregiver" é aquele que cuida de alguém, do seu bem estar físico e/ou emocional.

É fantástico o que aprendemos quando olhamos com atenção para o nome das coisas. Este exemplo encerra em si a essência da lidação com o material e o emocional/ espiritual. Cuidar do lado material é tirar, tomar, acto temporário: taker.
Cuidar física e emocionalmente é um elo que persiste, que não é temporário, é dar de si e dar-se a si ao ser que requer cuidados, é ser um dador - giver.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

coisas de comer: Só porque em francês soa a gourmet, tomem lá um magret de canard au miel de romarin et citron



No outro dia em resposta à quotidiana questão do que fazer para o jantar, pensei: peito de pato.

Mas como tinha visto momentos antes um bom filme sobre uma história baseada em factos verídicos que metia a corte francesa, a Maria Antonieta, e estava imbuída de toda aquela coisa de Versailles, decidi que não senhor, qual peito de pato qual quê!
Que iria sair dos tachos um belo de um magret de canard au miel de romarin et citron, que é exactamente a mesma coisa, mas em francês soa logo a gourmet.

Antes de vos dar a receita, deixem-me só soltar mais um pensamento: pel'amor da santa, não arruínem uma parte tão boa como o peito do pato ao cozê-lo para fazer arroz. Para isso usem outras partes menos nobre e saborosas. Sacré bleu!
E quem tira a pele ao bicho?! Sacrilégio! Dá direito a guilhotina!

Dito isto, vamos lá.

Uma hora ou no mínimo meia hora antes, com uma faca dão uns cortes na pele (e só a pele!) num padrão quadriculado.
Preparam uma marinada com uma colher generosa de sopa de mel, (cá em casa havia mel de rosmaninho), sumo de meio limão, sal, pimenta e ervas de provence a gosto. Colocam os peitos, já regados com a marinada, de volta ao frio.

Cortam cebola em finas meias luas, e preparam os cogumelos frescos pelando-os e cortando-os em quartos.

Numa frigideira antiaderente, sem qualquer gordura, colocam a cebola. Quando esta começar a amolecer, adicionam os cogumelos.  Passado curtos momentos colocam na frigideira os peitos de pato com a pele para baixo. O lume estará alto neste ponto, porque queremos aquela pele tostadinha, linda de tão dourada e crocante q.b.; queremos que aquela gordura cheia de omégas saudáveis que está debaixo da pele derreta e escorra, mas não tão alto que queime tudo.
Quando viramos a carne baixamos o lume e adicionamos a marinada, e ali fica o lado mais magro dos peitos, a cebola e os cogumelos quase a confitar naquela mistura untuosa de gordura de pato, mel, limão e ervas.

Não deixar passar demais os peitos. Queremos que o interior fique rosadinho.

Para empratar fazem como quiserem, mas eu cá achei piada a uma caminha de cebola e cogumelos com o magret fatiado ligeiramente na diagonal, em fatias de cerca de um dedo de espessura. Acompanhei com agrião.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

coisas sobre mim: INFP #1


Segundo a Tipologia de Myers-Briggs, existem 16 tipos psicológicos. Este (INFP) é onde me enquadro. (O relacionamento interpessoal não seria tão mais fácil se nos conhecêssemos a este nível?!)






terça-feira, 16 de maio de 2017

Pessoas de quem gosto #7



Gosto de quem sabe apreciar a beleza de uma qualquer flor sem a colher; dos que ouvem o canto dos pássaros sem que lhes ocorra aprisioná-los. Dos que sabem admirar tudo o que mundo tem de belo e espectacular, sem a necessidade de causar dano, maltratar, tornar seu ou levar à extinção.



domingo, 7 de maio de 2017

Vida de cão: Uma edição especial "Pais e Filhos"


Encontrámos na banca de uma papelaria uma edição especial da revista "Pais e filhos" totalmente dedicada aos cães: - "A vida de um cão - Guia completo dos 0 aos 15 anos - Manual de dicas e conselhos para manter o seu cão feliz".
São cerca de 130 páginas onde se aborda uma panóplia de temas relevantes desde a escolha de um animal, os pormenores em redor da chegada deste, ao que fazer quando já existe um cão residente e se pretende adoptar mais um animal, regras e comportamento canino, a questão das férias, ensino, legislação, bem estar animal, actividades, saúde... Tudo por palavras de veterinários e entendidos da matéria.

Os capítulos que já li entretanto agradaram-me pelo tom sensato e conteúdo repleto de informação e factos.
Decidi partilhá-la convosco porque, para além de ser útil, é de louvar quem se preocupa com a transmissão de factos e conhecimentos, colocando o sensacionalismo e desinformação de parte.


 
 


terça-feira, 2 de maio de 2017

terça-feira, 18 de abril de 2017

coisas da casa: Cozinha americana ou tradicional?


Quando me imagino embarcar na aventura de remodelar a nossa casa, por vezes fico com a ideia que demolir parte da parede que divide a sala da cozinha, para criar um espaço aberto seria uma boa opção.

Assim à primeira vista as vantagens parecem-me ser imensas, para além de significativas.
- A circulação entre ambas as divisões seria facilitada, e é um factor importante quando se tomam as refeições na sala e isso implica quinhentas viagens por dia, para lá e para cá, para pôr e levantar a mesa.
- Unificar os dois espaços daria a sensação de uma casa com maior amplitude e luminosidade.
- Quem está na cozinha deixa de estar isolado, continuando a haver comunicação e socialização com quem está na sala.

Os chamados open spaces estão em voga. Esta solução comum nas casas norte-americanas, também especialmente pela repetida exposição do conceito em n programas televisivos de remodelações e decoração, tem conquistado adeptos por todo o lado.

Os modelos tradicionais também possuem as suas vantagens.
As cozinhas convencionais, fechadas entre paredes, permitem sobretudo proteger, em parte, as restantes divisões de cheiros de comida, vapores e ruídos.

Como em tudo, existem acérrimos defensores de ambos os modelos. Há quem diga que a vantagem de abrir a cozinha, de torná-la num espaço social, onde ninguém fica sozinho, preso às tarefas, ofusca todas as possíveis desvantagens. E há quem diga que se trata de uma boa opção se a pessoa não cozinhar nem sujar, mantendo-a com aquele aspecto novo e imaculado de revista de decoração. Caso contrário a desarrumação, os odores e vapores que se entranham um pouco por todo o lado, os ruídos, especialmente do extractor de fumos e cheiros, são terríveis de aguentar e motivam arrependimentos.

Eu é que ainda não me consigo decidir: se por um lado adoraria modernizar o nosso espaço, torná-lo mais amplo, por outro não me cativa lá muito a ideia de estar na sala e gramar com o ruído baixo mas constante do frigorífico, ou das máquinas a trabalhar.

Fosse o caso de estar a construir uma casa de raíz não hesitaria em optar por uma cozinha em plano aberto, com a condição de ter mais uma divisão - um misto de copa e despensa - adjacente mas fechada, onde se possam colocar todas as fontes de ruído, os grandes e pequenos electrodomésticos, do frigorífico à liquidificadora, e todas aquelas coisas que sendo essenciais ao funcionamento de uma cozinha não ajudam muito a manter o aspecto clean, bonitinho e super organizado que se quer no espaço aberto e sempre visível que é a cozinha americana.

A alternativa será optar pela colocação de um painel ou porta, num modelo que seja ao gosto do freguês. Esta para mim é de todas a melhor solução porque permite que abrir ou fechar a cozinha seja uma opção. E eu sempre prefiro opções a obrigações.



Vida de cão: a caminho dos 3 anos...


... e o Kiko ainda surpreende.

Em muitos aspectos, mas sobressai o quanto ele nos entende. Só vos digo que só falta um dia o puto começar a ladrar em português.

Todos os dias, após cada passeio, há um ritual de limpeza que é essencial sobretudo pelo facto de ele andar livremente por toda a casa, por cima dos sofás, da cama, etc.

Basicamente após cada ida à rua, salvo raras excepções, damos-lhe um pequeno duche com água morna. Não total, mas com a intenção de lhe lavar as patas, o rabiosque, a barriguita, os bigodes...

Depois, em especial nesta estação do ano em que toda a bicharada acorda para a vida, inclusive pulgas e carraças, examinamos-lhe o pêlo e as patas.

Não seria extraordinário se lhe fosse dado sempre o mesmo comando. Mas como eu sou mais freestyle, tenho a imperdível mania de simplesmente conversar com ele, e depois fico boquiaberta quando ele me entende à primeira.

Como há um par de dias em que andava eu no "blá blá blá, Kiko" e de repente solto um "filhote, agora temos que ver se tens carracita", e o puto salta para cima de sofá e coloca-se imediatamente de barriga para cima, que é a posição do costume para investigarmos as patas em pormenor.



terça-feira, 11 de abril de 2017

coisas que imagino: O plano 25


Se têm por hábito visitar este humilde estaminé saberão já, de certeza, o quão acérrima defensora sou da poupança.

Imagino que só esta primeira frase é capaz de fazer revirar uns quantos olhos, afinal é um tema que tem sido estereotipado como uma seca, que soa a obrigação logo é automaticamente catalogado como chato. E isso acorda o nosso mecanismo de defesa que nos ajuda a ignorar o mais possível as coisas que nos parecem chatas, especialmente se temos essa opção, certo?!

Se vos dissesse que o desenvolvimento de hábitos de poupança não tem que ser nem chato, nem doloroso, que a construção de um pé de meia pode ser uma das melhores coisas que podem fazer por vocês e por quem mais gostam, acreditariam em mim?

Poupar é como jogar. Se algumas vez tiveram pachorra para jogar um dos muitos jogos do género do Farmville, em que era necessária paciência e persistência para ir ver das colheitas de x em x horas, e lidar com aquela mecânica de jogo, então estão mais que capacitados.

Hoje venho falar da poupança, especificamente de pés de meia, como um dos maiores gestos de amor, um dos maiores presentes.
Chamo-lhe "plano 25", (até parece mais uma daquelas dietas desenhadas por nutricionistas!), porque consiste em colocar 25€ de parte todos os meses.
Tal como dizem os nutricionistas, não é uma dieta, é um estilo de vida. E daqueles que nos permitem continuar a comer de tudo, que o pessoal não gosta de grandes sacrifícios.

Porquê 25? Para que seja acessível à grande maioria das pessoas, independentemente do seu rendimento. Aliás, a poupança é benéfica para qualquer agregado, mais ainda mais para os de baixos rendimentos.
Porque é mais fácil incutir e desenvolver hábitos de poupança que perdurem se estes não forem demasiado exigentes.

Antes de mais, vamos lá esmiuçar o que são 25 euros: uma peça de roupa ou um par de sapatos, um ingresso para um jogo de futebol ou 2 cafés por dia, uma semana de pequenos almoços de galão e torrada, ou uma refeição para dois a preço médio numa Pizza Hut, cerca de 15 imperiais, 3 ou 4 bons cocktails, 4 bilhetes para o cinema, ou depilação a cera num centro de estética, 1 ou 2 livros, etc, etc, etc...

Dá para perceber a ideia.

Vamos lá então chegar ao meu ponto favorito desta exposição: que frutos dão esses 25 euros se semeados, e onde entra a ideia do amor nisto tudo.

Imaginem que no dia em que um(a) filho(a) vosso(a) nasce, assumem de forma inabalável que seguirão o "Plano 25" à risca. Que não deixarão de cumprir o compromisso de colocar de parte os tais 25 euros por mês, que não haverão desculpas para o incumprimento, nem cederão a tentações, mesmo que surjam imprevistos.

Ao fim de 18 anos terão amealhado 5400 euros. Não é nenhuma grande fortuna, mas se usados com cabeça poderão significar uma grande ajuda numa tão significativa etapa da vida.
Por exemplo, ( e é isto que acho especialmente maravilhoso!), este pé de meia especialmente para as famílias que vivem com um orçamento apertado, e para quem seria muito complicado e até impossível pagar as propinas de uma faculdade, significa que o factor económico já não será um obstáculo.
Fosse segundo as tabelas deste ano da Universidade de Lisboa, as propinas referentes a uma licenciatura (3 anos) ficariam por 3190,41 euros.

E ainda sobram cerca de 2200 euros. Que dariam para algumas despesas de curso, ou para tirar a carta de condução e comprar um carro em segunda mão.

Não é fixe haver uma forma em que todos os pais, independentemente do seu salário, possam oferecer tudo isto a um filho?!
Há um bom tempo atrás, numa conversa com uma amiga, esta defendia que se não fosse o pequeno crédito, e os pagamentos a prestações, muitas pessoas não conseguiriam comprar uma montanha de coisas, tipo famosos robots de cozinha, aspiradores "mágicos" caríssimos e afins. Eu hei-de sempre defender a poupança à mesma. A poupança é como o pagamento a prestações dos jogadores de xadrez: como estes, a pessoa prevê e adianta-se, com a vantagem de se poder pagar a pronto e sem juros.

Se os avós tiverem vontade e possibilidade de participar neste "Plano 25", estamos a falar de mais 10800 euros. E se houver tios que se juntem estaremos a falar de 16200, 21600...

Para os jovens que planeiam com antecedência pode significar ter já de parte o valor para dar como entrada na aquisição de habitação própria. Para os mais empreendedores, o valor necessário para dar origem a um negócio. Para os mais independentes, a possibilidade de ir explorar a vida noutras paragens, ou de serem trabalhadores estudantes, numa casa alugada, com a segurança de terem uma almofada que os ajude nas despesas, especialmente nos momentos maus.
Tantas, tantas possibilidades, e tão significativas para qualquer jovem adulto, possíveis quando, por amor, pessoas da sua rede familiar decidem abdicar de 1 café por dia durante 18 anos.










segunda-feira, 27 de março de 2017

cromices #148: "Canificação" involuntária



Devido à quantidade de tempo que passo na companhia do meu cão, temo verdadeiramente que da próxima vez que brinque com uma criança me dê o reflexo de lhe atirar uma bola e dirigir-lhe um "busca!".

cromices #147: Truques de magia para cães



Nem sei o momento exacto em que me ocorreu começar a fazer uma espécie de "truques de ilusionismo" para entreter o Kiko. Tenho a certeza que foi num daqueles dias em que o clima não ajuda aos passeios, os brinquedos não o cativam, e ele fica especialmente maçador.

O fantástico dos cães é que nos basta fazer qualquer coisa inesperada com uma dose generosa de entusiasmo e o maravilhamento é garantido. Para ambos, devo confessar.

Pois bem, preparem-se, que aqui a maga vai revelar um dos seus truques!

Escondam algumas bolinhas nas mangas. Mexam as mãos com teatralidade, adicionem uns efeitos sonoros e vão "espremendo" as bolinhas, uma a uma, para fora do esconderijo. Garanto-vos que é a loucura total! Por aqui o Kiko fica em puro êxtase e até me devolve as bolas como que a pedir um encore!





quarta-feira, 22 de março de 2017

coisas de pensar: O feng shui, a religião e o bicho papão.



Feng Shui surgiu há cerca de 4000 anos. De forma muito sucinta, o objectivo desta corrente de pensamento é ser uma ferramenta para dotar os espaços físicos de equilíbrio, harmonizar as energias, potenciar a influência positiva destas e minimizar a influência negativa sobre estes.
Dizem os chineses que actua nos espaços físicos da mesma forma que a acupuntura age no organismo. Segundo esta filosofia oriental, a busca da harmonia com as forças benéficas da Natureza aumentarão a prosperidade, a saúde e a boa sorte.

Há anos senti-me especialmente curiosa acerca do Feng Shui e comprei um livrinho sobre o tema.
Muitas das dicas mais básicas desta filosofia estão relacionadas com o manter a casa limpa, organizada e sem tralha.
Diz que uma casa de banho suja, com a tampa da sanita levantada e porta aberta gera más energias, assim como ter os armários da cozinha desorganizados, com louça escavacada e produtos presentes que estejam estragados, fora da validade, é mau para a prosperidade. Que a presença de tralha no quarto, de aparelhos eletrónicos próximos na cama, de objectos relacionados com o trabalho, são inimigos do descanso.
São apenas alguns dos exemplos. Coloquemos só por uns momentos os óculos de cepticismo e veremos coisas que qualquer pessoa considerará tão banais que não precisa que exista um livro ou uma corrente filosófica que ensine: que se andamos a deixar comida estragar-se, passar de validade, então é óbvio que acaba por ser mau para a prosperidade, que é o mesmo que deitar dinheiro ao lixo; que uma casa limpa será um espaço propício à saúde, que num espaço cheio de tralha onde de dois em dois passos se dá uma canelada algures a pessoa não se sentirá cheia da tal boa sorte, não é?
A intenção não é de forma alguma desprimorar esta antiga corrente, mas utilizá-la como adjuvante a um raciocínio.
Diz o filósofo que há primeiro que aprender a gatinhar para depois aprender a andar. Isto aplica-se tanto ao indivíduo como em relação à evolução da espécie.
Acho que até a mais céptica das pessoas achará imenso valor numa filosofia que incita a hábitos de organização e higiene, mesmo que seja necessária a utilização de chamarizes como prosperidade e sorte para tal. Duplica, triplica, quadriplica o seu valor se tentarmos imaginar o que seria corrente em hábitos de limpeza e higiene há 4000 anos atrás. Olhem que a minha imaginação não pinta um quadro nada auspicioso!

Voltando às palavras do filósofo, quando somos crianças e os adultos sentem que estamos ainda numa idade em que não nos vão conseguir fazer compreender através do diálogo a importância de comer a sopa, a fruta, o peixe, de dormir cedo, de lavar os dentes, de estudar, de arrumar o quarto, usam-se outros métodos, nem que a de ameaçar chamar o bicho papão caso não se sigam as regras impostas.
Tudo com uma relativa paz de espírito, porque os adultos sabem que é temporário, que passados uns anos todos iremos compreender os benefícios de todas as regras que nos incutiam, e que nos vamos rir do bicho papão. Que certamente utilizaremos as mesmas artimanhas para educar os nossos filhos.

Proverbialmente, onde há duas, há três. Serviram o Feng Shui e o bicho papão para me trazer à religião.
Quero olhá-la com os mesmos óculos de cepticismo que coloquei há pouco.

Imagino-me na era e no papel de quem escreveu textos religiosos, que se tornaram regras para tantos.
Imagino o contexto histórico, geopolítico, social. A espécie humana com os ímpetos que conhecemos mas com menos uns milhares de anos de evolução, progresso, educação e literacia. Não me é difícil imaginar a necessidade global de inventar sistemas de crenças com o objectivo de incutir princípios morais e regras de comportamento mais elevados, mesmo que o preço fosse edificá-los sobre um modelo arcaico e dualista de castigo/ recompensa. Mas lá está, falamos de outros tempos, ou gosto de pensar que foram outros tempos.

Imagino-me como um desses escritores religiosos, (é o termo que prefiro), com uma relativa paz de espírito, a pensar que é temporário, que passados uns anos a Humanidade compreenderá por si mesma o porquê de não matar, de não roubar, de não cobiçar, de amar, perdoar, servir, e rir-se-á das estórias com bichos papões.

Mas e quando o bicho papão habita na religião? Quando esta defende a pedofilia através do casamento de homens velhos com meninas, quando se defende a existência de escravas sexuais como solução para o adultério, entre outras pérolas do mesmo calibre?
Quem é que desata agora este nó?




domingo, 19 de março de 2017

Vida de cão: Atenção à lagarta do pinheiro


Na povoação onde vivem os meus pais existe um parque canino, e ao pé deste um ou outro pinheiro. Não seria um facto em nada relevante não estivesse esse pinheiro a servir de morada à nefasta praga que é a lagarta do pinheiro. Ao que parece um dos cães que se passeiam pelo parque, curioso como todos os cães, sofreu na pele a consequência da presença destes bichos. Teve que levar quase meia dúzia de injecções devido às toxinas que a processionária injecta nas suas vítimas e perderá parte da língua devido a uma necrose dos tecidos.

Esta lagarta não é só perigosa para animais, mas também para as pessoas, em especial para as crianças, e até para as próprias árvores.
Esta espécie ataca pinheiros e cedros, e é comum em Portugal. Por isso decidi partilhar convosco um texto que retirei da página do ICNF, e onde poderão ver fotos destes insectos nas suas várias fases de desenvolvimento.


"1 - O que é a Processionária ou Lagarta do Pinheiro?

A processionária ou lagarta-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa Schiff.) é um inseto desfolhador que afeta as espécies dos géneros Pinus e Cedrus. Este inseto é endémico em Portugal e a severidade dos ataques depende do nível populacional, o qual é por sua vez profundamente influenciado pelas condições meteorológicas (temperatura e insolação), pelo conjunto de inimigos naturais ativos em cada estádio de desenvolvimento da praga (aéreo ou subterrâneo) e pela qualidade e quantidade de alimento, dos quais depende a fecundidade das fêmeas.
O nome processionária vem da procissão formada pelas lagartas quando abandonam a parte aérea da árvore e se dirigem para o solo, onde se enterram para iniciarem a fase de pupa que pode durar de 1 a 3 anos.


2 - Quais as espécies hospedeiras mais comuns em Portugal?

Em Portugal os hospedeiros principais deste inseto são os pinheiros, qualquer que seja a sua espécie.


3 - Que sintomas se podem associar à Lagarta do Pinheiro?

Os sintomas mais conhecidos são os ninhos, que constroem na ponta dos ramos, onde se refugiam quando não se estão a alimentar durante o Inverno.
No entanto, entre julho e novembro podem observar-se tufos de agulhas avermelhadas, ligadas por fios sedosos, nos ramos expostos ao sol, sendo visíveis lagartas dos primeiro e segundo instares. Os ninhos grandes, em forma de bolsões, constituídos por fios brancos e sedosos, na parte apical dos ramos expostos ao sol, aparecem a partir do Outono.


4 - A Processionária pode ser perigosa para pessoas e animais?

Sim. As lagartas da processionária-do-pinheiro a partir do terceiro instar (novembro-dezembro) desenvolvem pêlos urticantes que provocam alergias na pele, nos olhos e no aparelho respiratório dos seres humanos e podem provocar os mesmos sintomas nos animais.


5 - O que fazer quando se encontram lagartas de processionária?

a)    Se encontrar em área florestal (que não seja sua propriedade) afaste-se;
b)    Se encontrar em espaços públicos em áreas urbanas:
a.    Afaste-se e entre em contacto com a Proteção Civil, Câmara Municipal ou com os serviços regionais do ICNF I.P. http://www.icnf.pt/portal/icnf/contact/serv-desc
b.    Nas escolas e outros locais onde estejam presentes crianças, impedir, sempre que possível, o seu acesso à zona das árvores atacadas sobretudo na altura em que as lagartas descem da árvore.
c.    Em caso de aparecimento de sintomas de alergia, consulte de imediato o posto médico mais próximo.
c)    Se encontrar na sua propriedade, deve tomar as medidas necessárias e recomendadas para controlar ou eliminar a presença do inseto, evitando a sua dispersão.


6 - Como se dispersa a processionária?
O inseto pode dispersar-se de forma natural através do voo dos adultos ou através da circulação de plantas ou partes de plantas hospedeiras. As fêmeas podem voar alguns quilómetros para selecionar um hospedeiro e aí efetuarem as suas posturas. Como elas se dirigem para as silhuetas dos pinheiros, as posturas concentram-se nas árvores de bordadura ou naquelas que se encontram isoladas.


7 - Que medidas de controlo podem ser tomadas?
Existem diversos meios de controlo que podem ser aplicados:
janeiro a maio: destruição das lagartas em procissão e pupas no solo

Aplicar cintas adesivas nos troncos das árvores embebidas em cola à base de poli-isolbutadieno  para captura das lagartas aquando da procissão de enterramento;
  • Proceder à recolha manual e queima das lagartas encontradas no solo (cuidado com os pelos urticantes!);
  • Mobilizar o solo, nos locais onde se suspeita de enterramento, para destruição das pupas.

  • junho a setembro: uso de armadilhas
    • Instalar armadilhas iscadas com feromonas sexuais (1 a 3 por hectare), para captura de machos (borboletas).

    setembro a outubro/novembro: tratamentos bioquímicos
    • Através de inibidores de crescimento, hormonas de muda dos insetos e inseticidas microbiológicos à base de Bacillus thuringiensis (apenas eficaz no estado de ovo ou nos primeiros instares de desenvolvimento larvar 8-10 mm de comprimento) - até outubro;
    • Através de microinjeção no tronco (lagartas até 30 mm) - normalmente eficaz entre setembro e novembro.

    outubro a dezembro: destruição de ninhos
    • Proceder à remoção manual dos ninhos seguida de queima ou injeção de um inseticida piretróide de síntese nos ninhos (ação a executar durante o dia, quando as lagartas se encontram no ninho).
    8 - Quem deve proceder aos tratamentos para controlo da processionária?

    As medidas de controlo para a processionária devem ser tomadas pelos proprietários/gestores das árvores afetadas. No caso da aplicação de inseticidas devem ser observadas as normas de higiene e segurança e só podem ser aplicados inseticidas aprovados pela DGAV, seguindo os requisitos legais de comercialização e aplicação de produtos fitofarmacêuticos, pelo que deve sempre consultar o sitio digital da DGAV antes de qualquer aplicação:
    http://www.dgv.min-agricultura.pt/portal/page/portal/DGV/genericos?actualmenu=3665921&generico=3669837&cboui=3669837 "

    quinta-feira, 16 de março de 2017

    coisas de opinar: A gentil arte de fazer inimigos.



    A caminho dos 38 anos, a pessoa que sou hoje é uma versão muito distante da miúda que deixava as questões por resolver, que optava, (pelo menos na maioria das situações, até porque há limites), por fugir de possíveis confrontos, e ficava calada.

    O que se passou esta manhã foi um óptimo exemplo:

    Ao pé da minha casa há um café, e muitos dos seus clientes cumprem a secular tradição nacional de querer estacionar o mais próximo possível da porta do estabelecimento, mesmo que isso implique ocupar o passeio, dificultando a vida aos peões, e até correndo o risco de os atropelar, pois decidem subir com os veículos numa zona onde o passeio é mais baixinho, mas que não tem qualquer visibilidade, e toca de avançar por cima do passeio, por vezes a toda a brida, surpreendendo quem vai a pé que só não é passado a ferro se tiver bons reflexos.

    A desculpa de não haver estacionamento disponível simplesmente não é desculpa, pois a 10 metros de distância há toda uma rua com imensos lugares à espera de serem usados. Trata-se simplesmente de uma questão de preguiça e egoísmo, uma daquelas situações em que se pensa só na própria comodidade e que se lixem os outros. Às vezes nem é por maldade, é porque vamos pela vida em piloto automático, em que a variável "outro" nem sequer chega a entrar na equação das nossas vidas, nem é um factor considerado.

    Esta situação não é de agora, arrasta-se há anos. Mas em cada manhã que vou passear o Kiko e me confronto com o passeio ocupado, ou que quase somos atropelados, é mais uma gota no copo, e inevitavelmente chega o dia em que o copo transborda.

    Hoje foi o dia.
    Há umas semanas que o passeio tem sido ocupado por três ou quatro carrinhas, do transporte de pessoal da construção civil que vão ao café antes do trabalho.
    Já no regresso para casa, tivemos mais uma vez que optar por contornar uma das carrinhas pelo lado da estrada e corrermos o risco de sermos atropelados, (que os condutores que por aqui passam demonstram cada vez mais uma conduta perigosa, desatenta e até criminosa), ou passar pelo lado de dentro, num corredorzinho com cerca de 30 cm de largura entre a carrinha e muros, em que implicaria eu levar com folhagem e ramos de sebes na cara. Optei pela segunda.

    Após libertar-me daquele emaranhado de verde que tive que furar com a cabeça, dei de caras com um aglomerado de pessoas que presumi e bem serem os ocupantes das carrinhas. E pensei que de hoje não passaria, e lá fui dar-lhes uma palavrinha.
    Perguntei a um senhor se era o condutor da carrinha que acabara de contornar, disse que não. Mas logo apareceu um senhor solícito, que embora também não fosse o condutor, se mostrou disponível para me ouvir.
    Com educação e gentileza, usando até um por favor pelo meio, pedi-lhes se lhes seria possível passarem a estacionar 10 metros mais atrás. Que ali havia toda uma rua com "quilos" de estacionamento, e assim não bloqueavam o passeio. Que é perigoso ter que passar pela estrada, e havendo estacionamento não há necessidade de tal.
    Um dos senhores concordou de forma enfática comigo. Os outros não sei, pois mal expus o meu pedido agradeci e segui caminho.

    Quando chegámos a casa e contei ao marido, meneou a cabeça e soltou um "lá estás tu a fazer inimigos".
    É nestes momentos que me sinto como o Sheldon do Big Bang em termos de aptidões sociais. Disse-lhe veementemente que achava que não. Se tinha sido educada e gentil, se usei um tom amigável e até um "por favor", se expus de forma breve um bom argumento, e apresentei uma melhor solução que respeita as necessidades de ambos, não há motivo para encarar esta abordagem como uma entrada em guerra.
    Eu sei, eu sei... As pessoas, na grande maioria, não gostam nem um pouco de ser contrariadas e aceitam pessimamente as críticas, venham elas com pregos ou paninhos de pelica.

    Neste momento sobressai a minha esperança no poder da argumentação, da diplomacia, e simplesmente da boa vontade entre as pessoas. Amanhã de manhã, em mais um passeio matinal com o Kiko, logo tirarei uma conclusão sobre se o diálogo vence, ou neste mundo estamo-nos mesmo a cagar para os outros.

    Depois conto-vos.





    sexta-feira, 3 de março de 2017

    cromices #146: Dos "super-poderes" pouco úteis



    Quem é que nunca desejou ter super-poderes como os personagens de filmes, séries e bandas desenhadas?

    Ter o dom da invisibilidade, da regeneração, correr como o Flash, ter a força de um Hulk ou as capacidades telepáticas do Professor Xavier...
    São todos tão cativantes que se me pedissem para escolher um só poder a escolha seria difícil.

    Exageros à parte, o que tenho de mais parecido com um "superpoder" pelos vistos é a capacidade de adivinhar o que o meu marido almoçou. Coisa que acontece com tal frequência que até já gozamos com a situação.

    Ontem durante a tarde, comecei a pensar no jantar, e ocorreu-me hambúrgueres ou salmão. O marido chega a casa, e como de costume pergunto-lhe o que almoçou: hambúrguer de salmão.
    Goza comigo, e eu respondo-lhe que mais uma piadinha e sirvo-lhe é couves de bruxelas. Descamba tudo: o acompanhamento do tal hambúrguer de salmão havia sido couves de bruxelas. Claro.

    Anteontem, pensei em costeletas. Chega o marido, repete-se o ritual, o que é que almoçaste e tal: costeletas.

    Não dá antes para acertar na chave do euromilhões?!

    sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

    coisas de jogar #8



    Beholder

    Este jogo passa-se numa sociedade totalitária, num cenário distópico inspirado por vários autores como Orwell, ("1984").

    Aqui assumimos o papel do personagem principal - Carl. A saga de Carl e da sua família inicia-se com uma carta do governo, em que este é informado do seu novo papel: o de porteiro de um prédio.
    O seu papel é saber tudo sobre todos, e reportar através do mítico telefone vermelho, o ministro.
    Aqui, não há escolha que não tenha consequências.




    cromices #145: As pessoas são como o caviar, ou todas as moedas têm duas faces.



    A minha Mãe tem vários apelidos carinhosos com que me trata. O meu favorito foi sempre, de longe, o de "bruxinha". Sem saber deste pormenor, o meu marido também me trata por um cognome muito semelhante, e a ambos respondo "bruxinha não, bruxa má da floresta, faz favor!", antes de me desmanchar a rir.

    Agora lembrei-me que também gosto de "ursa na gruta" de tal forma que estamos perante um empate.
    De qualquer modo, são ambos petit noms que me assentam que nem uma luva, e que uso ao peito como um crachá com um desmedido, e talvez exagerado, prazer.
    Para além de lhes achar piada acho que revelam parte da minha natureza, especialmente a parte relacionada com introversão e o meu afincado gosto por passar tempo comigo própria, em casa de preferência, perdida em leituras, projectos e pensamentos ou até num estado de graça de dolce far niente.

    "Credo! Mas és assim, tão... tão anti-social?!" - perguntarão. Ao que eu responderia, "tem dias". Ou melhor ainda, "tem momentos".

    Nada define melhor o meu lado lunar de que a memória de quando li pela primeira vez o "Assim falou Zaratustra". Estava a meio da minha adolescência e a primeira coisa que me ocorreu foi uma inveja do personagem: "Cabrão do velho! Sortudo do caraças! Desce à aldeia só quando lhe apetece mandar uns bitaites e depois volta para a gruta, onde ninguém o chateia!"
    Também quero viver numa gruta, pensava eu. É claro que esta teria que ter todos os confortos, do wc ao wi-fi.

    Ou ainda uma memória de quando teria uns 3 ou 4 anos, e ia com a minha mãe às compras pela mão, e volta e meia encontrávamos uma senhora na rua, e esta insistia no "dá cá um beijinho", o que era uma autêntica maçada para mim, e eu escondia-me atrás das pernas da minha mãe. E mesmo assim o raio da mulher não se calava com a trampa do beijinho, o que resultou numa espécie de reacção pavloviana, comigo a queixar-me que não queria beijinhos e que ela era chata mal a topava no fundo da rua.
    Na verdade comecei a enfadar-me tanto, mas tanto, com a insistência geral em relação a isso dos beijinhos a toda a hora e a todo o momento, que um dia passei-me dos carretos e mordi a bochecha de uma menina, depois de minutos com a minha ama, a mãe da menina e até esta a instar na coisa. E eu, truncas, toma lá! Uma espécie de grito do Ipiranga, de "deslarguem-me a braguilha!"

    Não é que não gostasse ou goste de beijinhos, apenas nasci a dar valor à liberdade de os dar quando e a quem quero. Aqueles que eu poupava na rua, levava-os para casa e para sofrimento do meu pai, dava-lhos todos de uma virada. Sentava-me no seu colo, prendia os meus bracitos à volta do seu pescoço, e dizia-lhe "Papá, vou-te dar cinquenta beijos", e o desgraçado do meu pai não se livrava de mim nem um beijo antes.

    Quanto aos tipos sociais eu quedo-me exactamente no meio, qual equilibrista na linha que separa a introversão da extroversão que ora pende para um lado ou para o outro.
    Há quem só conheça o meu lado mais cordial, simpático, empático, sorridente, conversador, paciente e atenta ao próximo q.b.. Há momentos em que consigo ser tão faladora e maçadora como qualquer outra pessoa, e até demonstro uma comum tendência para a repetição e uma particular incidência nas piadas secas.
    São os momentos em que consigo e quero canalizar a minha energia para o mundo exterior, tão genuínos e parte de mim quanto os instantes em que a minha atenção se vira para dentro, para o mundo interior, para mim mesma, e se fecha ao que vem de fora.

    São faces da mesma moeda, um não existe sem o outro. Em mim, com tudo o que isso implica, não existe lado solar sem lado lunar. Quando não respeitam o meu lado lunar, a face solar eclipsa-se.

    Quando tenho que interagir gosto especialmente de o fazer com a minha faceta solar. Gosto genuinamente de pessoas e é igualmente verdadeiro o sorriso que ponho na cara para todos. Existe um esforço da minha parte para dar o meu melhor nessas ligações, para prestar mesmo atenção às conversas, e demonstrar real interesse mesmo que o tópico não seja dos meus favoritos, ou que já esteja a ouvir pela segunda ou terceira vez o mesmo discurso. Obrigo-me a estar disponível, presente, a ser tão positiva quanto consiga, porque acho que é assim que tem que ser, que tanto eu como as outras pessoas merecem essa qualidade, essa intenção, aquando os nossos contactos. Não se trata de fingimento, mas de canalizar o melhor que temos para oferecer naquele determinado momento.

    E há quem só me conheça assim: basicamente são as pessoas que me permitem apreciá-las como caviar, ou qualquer outra iguaria especial que preste à metáfora por se dever degustar com parcimónia, uma colherzinha de cada vez.

    São as que entendem que não devem insistir em mais chamadas quando desligo a primeira, porque depois da segunda tentativa, especialmente se for de seguida, sou bem capaz de desligar o telemóvel durante uma semana. Que quando digo não ter disponibilidade para vídeo chamadas naquele momento, e voltam a insistir, fazem com que me desligue de qualquer chat por tempo indeterminado. Que quando se cruzam comigo saberão que há dias em que não dá para mais que a troca de um cumprimento, e não insistem em despejar-me um monólogo em cima, para o qual não terei naquele momento nem tempo nem paciência. Especialmente se for às 7h da manhã, por Deus! Que querendo obrigar-me a sujeitar-me à sua vontade ignorando a minha, obrigam-me a ser descortês, o que me desagrada igualmente.
    São as que entendem que para pessoas como eu a existência de afectos não depende de se falar todos os dias, ou todas as semanas, ou até todos os meses. Que não querer estar sempre a conversar não é, de todo, o mesmo que estar zangado, ou doente, ou mal. É simplesmente ter uma personalidade e necessidades diferentes. O que a uns energiza e dá prazer a outros cansa.
    Uma colherzinha de caviar pode ser uma iguaria, para alguns, mas se vos fizerem comer toda uma tigela de enfiada, não será mais que algo gelatinoso e salgado.







    segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

    coisas de jogar #7



    Stardew Valley

    Falar de Stardew Valley é começar por falar de Eric Barone, ou melhor ConcernedApe, que desenvolveu o título completamente sozinho, durante 4 anos, o que implicou frequentes jornadas de 10 horas. ConcernedApe dedicou-se à elaboração de todos os componentes do jogo, em todas as suas fases, desde a programação, à pixel art, ao som.
    Não só é fantástico ser uma só pessoa a abraçar a colossal tarefa que é o desenvolvimento de um jogo, como não estamos a falar de um profissional com carradas de experiência e um currículo extenso, mas de alguém que não tendo encontrado emprego na sua área quando terminou o curso, dedicou-se a este projecto também como forma de afinar as suas capacidades. Igualmente incrível é que em 2016, aquando o seu lançamento, foi um sucesso imediato, (ultrapassando em meses um milhão de vendas), como foi nomeado para vários prémios, inclusive o do melhor jogo indie do ano.

    História à parte, é um bom jogo, e recomendo-o!








    quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

    caixa de ressonância






    coisas que gosto: Billions in change e a bicicleta que produz energia



    Manoj Bhargava é um bilionário indo-americano que fez fortuna com uma bebida energética.
    Em 2015 juntou-se à campanha The Giving Pledge, iniciada por Bill Gates e a sua mulher em 2010, que consiste numa lista crescente de pessoas que se comprometem a doar a maior parte da sua fortuna, ainda em vida ou após a morte, a causas filantrópicas.

    Com o apoio financeiro de Manoj surgiu a Billions in Change - um movimento que visa desenvolver soluções simples nas áreas da energia, água e cuidados de saúde, com o objectivo de tirar biliões de pessoas em redor do mundo da extrema pobreza, e assim melhorar de toda a população global - pobres e ricos.
    A crença desta organização é que facultando soluções tecnológicas simples que satisfaçam necessidades básicas como água potável para consumo e agricultura, energia limpa e gratuita para as habitações, escolas e negócios, e o acesso a cuidados de saúde cuja filosofia é a prevenção, é o caminho correcto para retirar cerca de metade da população mundial de uma situação de extrema pobreza e desigualdade para com a outra metade.

    Uma das maiores apostas da BiC é a Hans Free Electric, uma bicicleta estacionária que segundo afirmam, basta pedalar durante uma hora para produzir electricidade para um dia inteiro para uma habitação.
    Existem muitos engenhocas pelo mundo que apresentam variações desta tecnologia, as opiniões diferem sobre as possibilidades, o melhor caminho, etc. Mas, embora todo o produto possa ser afinado para ser melhor, gosto do conceito, da mudança que este modelo representa já para a paupérrima população da Índia rural.

    Sobretudo aprecio o potencial: quantas bicicletas estacionárias existem por este mundo fora, não seria fantástico se aproveitássemos todo esse movimento para produzir energia, gratuita e não poluente?

    Pois eu cá adoraria ter uma em casa: imagino-me a pedalar enquanto estou aqui convosco, por exemplo, aproveitando para poupar na conta da electricidade.









    segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

    cromices #144: Do marketing...



    Demorei anos para perceber que gosto imenso de Marketing, e não só de Publicidade.
    Demorei ainda mais tempo para concluir que talvez tenha sempre gostado de Marketing, e que a minha crença anterior não teria passado de um equívoco.

    Sabem, é que é muito fácil acreditar que não se gosta, neste caso, de Marketing, quando muitas empresas que supostamente procuram alguém para esta área, na realidade procuram é um pau para toda a obra, que acaba por fazer de tudo... menos Marketing.

    Quando vivemos livres dessas empresas, o amor regressa.

    Aqui há dias, de uma forma totalmente casual e inesperada, no meio das minhas rotineiras deambulações, regresso a casa com um contacto de uma empresa, dada em mãos pelo próprio.
    "Preciso de alguém nessa área" - diz-me, em inglês.
    Pergunto-lhe a área de actuação. Responde-me com o site da empresa, e pede-me que lhe envie depois o meu mail.

    Chego a casa, e pesquiso a empresa. Uma simples pesquisa revelou alguns elementos. Para mim, mais revelador e determinante que qualquer informação institucional, foi a descoberta de um par de anúncios de emprego já com alguns anos.
    No primeiro anúncio esta mesma empresa procurava alguém a tempo inteiro, um(a) funcionário(a) de limpeza. Até aqui tudo bem.
    O problema reside na secção onde se descreve os requisitos e perfil que se procuram no candidato: tinha que ter viatura própria, conhecimentos de inglês, de informática... Ou seja, que seja pau para toda a obra, capaz de imensas coisas que excedem os conhecimentos necessários para a execução de limpezas, mas pago somente como tal, como é de prever.

    Os outros anúncios não diferem muito deste.

    Para mim, este tipo de anúncios dizem-me mais sobre uma empresa que qualquer outra coisa. E mal.
    São o tipo de empresas, com as quais aprendi por experiência própria, que o único lugar que têm na minha vida, é na minha lista negra.
    Mesmo assim, enviei o meu mail, embora não tenha obtido até ao momento qualquer resposta.

    Começaria por lhe pedir uma descrição exaustiva e transparente das funções que esta pessoa imagina incutir neste alguém que procura "para o marketing". Receberia depois da minha parte uma lista de serviços a que o Marketing se presta e um preçário, uma estimativa de orçamento, e o contacto de algumas agências especializadas.
    Até tenho pena de não ter recebido o tal contacto. Teria todo o gosto em lhe dar, absolutamente grátis, a lição que o trabalho paga-se condignamente, e que há que respeitar todo o especialista, seja médico, advogado, arquitecto, ou marketeer.




    quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

    coisas de opinar: Um aumento de imposto com o qual concordo.



    Trata-se do recém criado Imposto sobre açúcares.

    Este determina que às "bebidas adicionadas de açúcar ou edulcorantes" como é o caso dos refrigerantes será cobrado um imposto adicional.
    Este divide-se em dois escalões, dividindo os produtos quanto à quantidade de açúcar adicionado: às bebidas com até 80 gramas de açúcar por litro, o imposto cobrado será de 8,22 euros por hectolitro (100 litros). Se a quantidade de açúcar for superior, o imposto passa a ser 16,46 euros. Ou seja, por cada litro de refrigerante o valor do imposto será 8,22 ou 16,46 cêntimos.
    Para além dos refrigerantes, esta medida englobará também bebidas de baixo teor alcoólico (de 0,5% a 1,2%) como as sidras e o hidromel.
    As bebidas doces à base de leite, assim como os néctares e sumos de fruta não estão incluídos neste imposto.

    Os comerciantes devem contabilizar o seu stock destas bebidas e comunicar os dados ao fisco, pois terão até 31 de Março para vender os produtos adquiridos antes da promulgação desta nova taxa, sem a pagar. A partir de 31 de Março, pagarão imposto mesmo sobre o stock antigo.

    Cabe às empresas do sector a decisão sobre se o imposto será pago por estas ou pelo consumidor.

    Obviamente que as empresas do sector não estão satisfeitas porque esperam uma descida no consumo. Mas, o objectivo desta medida por parte do Governo é exactamente essa: diminuir o consumo de bebidas açucaradas pelo simples facto que estas prejudicam a saúde.
    Por esse motivo sou totalmente a favor deste imposto, e também me agrada sobremaneira que as receitas geradas por este sejam direccionadas para o orçamento do ministério da Saúde. Estamos a falar de uma previsão de cerca de 80 milhões de euros.

    Espero que a maioria das pessoas já esteja ciente dos malefícios para a saúde do consumo de açúcar em excesso, e que todas as bebidas contempladas pelo imposto usam na sua composição quantidade completamente abusivas e aberrantes e que devem ser, se não riscadas dos hábitos pelo menos consumidas com moderação. Aliás, já tínhamos abordado este tema por aqui, em 2013.

    Este é um passo evolutivo, é um imposto com raíz numa boa causa.  As empresas do sector que se adaptem aos novos tempos, que invistam no desenvolvimento de produtos amigos da saúde. Da mesma forma que não se usa amianto na construção de casas modernas porque se chegou à conclusão que este é cancerígeno, isto não é diferente.

    Só lamento que tenha faltado a coragem para estender este imposto às bebidas alcoólicas. O lobby é forte, afinal somos um país de bêbados, mas um dia chega-se lá.
    Frustra-me, choca-me e indigna-me que em qualquer café, uma cerveja, por exemplo, seja vendida quase ao preço de um café, seja mais barata que uma garrafinha de água, (que deveria ser a bebida mais barata do mundo), e bastante mais barata que um sumo de fruta ou néctar, ou até chá. E quando falamos de um sumo de laranja natural a comparação é tremenda: pelo preço que alguns estabelecimentos cobram por este dá para comprar 3, 4 , 5, 6 cervejas...



    segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

    coisas de opinar: As hienas de Harar e as raposas de Portugal.



    Ontem assistimos, deliciados e estupefactos, a um documentário da vida animal passado na vila etíope de Harar, sobre a relação incomum entre os seus habitantes e as hienas.
    No passado, por falta de alimento no seu habitat natural, as hienas sentiram-se forçadas a migrar das montanhas para as redondezas desta vila. Naturalmente, começaram os ataques a rebanhos e talvez a humanos.

    Como acontece ainda hoje em dia, uma vez por semana, o conselho de sábios reuniu-se para meditar sobre uma solução para este problema. O fantástico é que em tanto lugar do mundo, na maioria acredito, a solução encontrada passaria por exterminar as hienas. Mas não em Harar!
    Isto passou-se há uma centena de anos: a solução definida pelos sábios de Harar foi que se passasse a alimentar as hienas.

    Em vários pontos da vila são deixados recipientes com uma espécie de pudim de cereais bem regado com manteiga, mas o verdadeiro fenómeno reside na existência de homens que alimentam as hienas à mão, dando-lhes pedaços de carne, com a ajuda um pauzinho. Que as chamam assobiando, que as conhecem e lhes deram um nome, e cujo chamado elas reconhecem.



    Criou-se uma inesperada harmonia entre animal selvagem e humanos, que atrai curiosos de todo o mundo. O que começou por ser um gesto nascido da necessidade para preservar vidas humanas e rebanhos, sem abdicar do respeito pela vida e compaixão, cresceu para uma relação que se pode até chamar de afectuosa.
    As hienas andam à vontade pelas ruas da vila, as pessoas passam por elas como se nada fosse. Têm-lhes carinho: confessam que olham para estas como amigas, cães. Que tal como os cães estas parecem entender o que lhes dizem.
    No documentário há vários momentos destes, desde uma senhora que já não consegue dormir descansada sem os sons das hienas, uma mãe que leva uma criança para as ver mais de perto, o jovem alimentador de hienas de somente 19 anos que depois da primeira noite em funções diz nunca se ter sentido mais entusiasmado e feliz, de como fala da vitória que é a lenta conquista de confiança em que o animal vem buscar o seu pedaço de carne e permite um afago.

    Criaram superstições e crenças animalísticas em que a hiena é um espírito protector, que os salva de demónios e djinn. Há sempre uma base de verdade nos mitos e a mim pareceu-me que a protecção atribuída à hiena é o seu papel na ecologia: por exemplo, os restos provenientes dos matadouros são deixados numa colina, e os cães e hienas comem todos os restos. E por incrível que pareça, em companhia uns dos outros, sem ataques.
    Há cães, gatos, e crianças, e todos andam livremente pelo espaço. À noite as pessoas recolhem às suas casas, e a presença das hienas intensifica-se nas ruas da vila. A tv mostra a imagem de uma hiena que acelera para se desviar de uma matilha de cães mais atrevidos. Quisesse ela e comia um deles só com uma dentada. Simplesmente não esteve para isso.

    Acho que já deu para pintar o cenário das hienas. Posso passar agora às raposas.
    Porquê as raposas, e em Portugal, como escolha de tema?

    As redes sociais inflamaram-se quando se espalhou nas mesmas o anúncio de uma "batida" organizada pelo clube de caça e pesca de Santa Tecla, Famalicão, com data marcada para 26 de Fevereiro.
    Como em tudo, as opiniões dividiram-se e ambos os lados fizeram-se ouvir.
    Na defesa do evento, o presidente do tal clube afirmou que a grande motivação do evento é "desportivo", que é um desporto como outro qualquer, que é algo que já se faz desde a época dos reis.

    Mais aqui.

    Eu cá sou absolutamente contra a caça desportiva. Aliás, a abolição desta é uma das minhas causas.
    Não acho plausível nenhum dos argumentos utilizados como tentativa de justificação de práticas que residem na busca de prazer através da crueldade. Isso, nos dias de hoje, para qualquer cabeça sã não é mais que sinal de psicopatia.

    Usar a tradição como argumento é vão: a antiguidade de uma prática não justifica a sua perpetuidade. Unicamente o carácter desta define a sua continuidade.
    Felizmente existe algo chamado evolução, e o que foi um dia aceitável, no futuro deixará de o ser. Caso não o fosse não se lutaria pelo fim da prática da mutilação genital, das touradas, dos circos com animais. Caso não o fosse nunca teria sido abolida a escravatura, nem se teriam redigido declarações como a dos Direitos Humanos ou da Criança, continuariam a haver tribos canibais, sacrifícios humanos, serviríamos um senhor feudal que teria total domínio sobre a nossa pessoa e vida, e por aí fora. Afinal tudo isto e muito mais pertence a uma lista de antigas práticas, logo tradicionais, certo?!

    Sim, tristemente por vezes a caça parece a última solução em determinadas situações. Por exemplo, nos casos extremos em que uma espécie invasora chega a um território, geralmente sempre por mão humana, e por não pertencer aquele habitat, não ter predadores, todo o ecossistema, todas as outras espécies correm um enorme e bem real perigo de desaparecerem. Um desses exemplos é a presença do peixe-gato em várias zonas onde este não é nativo. Mas não deixa de ser uma triste intervenção na tentativa de corrigir um enorme erro humano. Aliás, quando decidimos interferir o resultado não costuma ser bom.

    Outra situação é o recurso à caça como meio de sobrevivência. Nem todas as pessoas do mundo vivem numa sociedade onde há mercearias e hipermercados à esquina. Existem ainda lugares em que se não caças, não comes, e se não comes, morres.
    Mas essas pessoas, como não faltam documentários que as apresentam aos nossos olhos, são muito diferentes dos caçadores desportivos. Estas fazem-no por verdadeira necessidade, muito provavelmente ficariam horrorizadas perante alguém que o faz somente por prazer, porque melhor que muita gente, sabem que se tirarem da Natureza mais do que aquilo que necessitam, na conta da frugalidade, gera-se um desequilíbrio do ecossistema. Que o respeito pelas outras espécies é indispensável à sua, que não são mais importantes que qualquer uma das outras espécies com quem partilham aquele espaço. Que o ego é sinal de tolice.

    Para terminar, deixo-vos com um par de vídeos protagonizados por raposas, esses seres maravilhosos, e pensem lá se concordam ou não com a caça desportiva, se se imaginam em sua perseguição.












    terça-feira, 24 de janeiro de 2017

    coisas da casa: Não é seguramente a mais bonita, mas gostamos tanto dela!



    Aqui há tempos, quando decidimos remodelar o escritório, decidimos aproveitar um dos sofás que nos havia servido na sala como solução temporária.
    O pequeno sofá de dois lugares em rattan com almofadas brancas tinha o tamanho perfeito para aquela parede. Ao lado das estantes, e no recanto em que o sol da tarde bate com toda a sua força, providenciaria um perfeito recanto de leitura.

    Era uma solução temporária porque o pequeno sofá sofria do pecado capital de não ser lá muito confortável embora fosse giro, e após anos de uso, e de imenso abuso por parte dos nossos saudosos gatos, estava mesmo pronto para a reforma.

    Então o que colocar em seu lugar? - era a questão.

    Corremos lojas de mobiliário. Apercebemo-nos que o espaço que tínhamos disponível iria ser um imenso entrave se a opção fosse um outro sofá: os confortáveis eram invariavelmente grandes demais, e os pequenos demasiado desconfortáveis.

    Percorremos o dicionário dos assentos à procura de inspiração: otomanas, chaises-longues, cadeirões, cadeiras de baloiço, ou qualquer outra coisa que pudesse servir com alguma imaginação aquele propósito, de camas a bancos, ou até arcas...
    Mas do que as lojas nos ofereciam, ou não partilhávamos da mesma opinião, do mesmo gosto, ou era demasiado caro para um simples assento para o escritório, ou não era suficientemente confortável, ou...

    Concordámos que o conforto seria o atributo basilar. E aí o marido lembrou-se que queria mesmo um daqueles cadeirões de massagem.
    Resisti ao início, mas depois rendi-me.

    Estas poltronas não são propriamente as mais bonitas, embora também não sejam uns monstrengos. Mas, o que lhes falta em design, compensam largamente em conforto. De tal forma que passado algum tempo achámos que a melhor opção seria coloca-la na sala, por ser a divisão em que passamos mais tempo e assim dar-lhe mais uso.

    Estamos completamente rendidos. Como sabe bem esticar as perninhas na poltrona, tapada com uma manta fofinha, a levar uma massagem, com ou sem calor, enquanto leio um livro ou vejo um filme.
    Recomendo.


    segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

    cromices #143: O que fizeste no primeiro mês do ano?



    Na manhã de Natal acordei doente. Uma gripe com direito a todos os tradicionais sintomas, das dores no corpo à garganta irritada.
    "Fruta da época" - chamei-lhe eu, na brincadeira. Afinal temos passado por dias excepcionalmente frios e não havia canal de televisão que não noticiasse o quanto o vírus andava por aí em força.
    Muni-me de agasalhos extra, sopinhas e chás quentes, dose reforçada de alimentos fonte de vitamina C, aspirina para ajudar a amenizar os sintomas, e acima de tudo muita paciência e sentido de humor, essenciais para quem, como eu, tem um organismo que demora a curar-se destas coisas.
    Andei com todos os cuidados a desinfectar com maior frequência a casa na tentativa de não a pegar ao marido. Mas o que ele não apanhou em casa, apanhou no trabalho.
    Dois doentes em casa. Com a passagem dos dias ele ia melhorando, felizmente, e eu nada. Não estranhei porque, normal ou não, o meu organismo demora mesmo mais tempo a restabelecer-se. Nem estranharia, não acordasse numa manhã num estado perfeitamente lastimoso, em que qualquer leve menear de cabeça provocava-me mau estar e dava-me vómitos, em que tremia de frio mesmo debaixo de grossas camadas de edredons e mantas.
    "Queres que te leve ao hospital?" - perguntava ele.
    "Credo! Nem pensar!" - respondia eu, só de pensar em fazer uma viagem de carro com tanto enjôo e frio, para depois enfrentar uma espera de 3 ou 4 horas, na melhor das hipóteses. Vinha-me à mente a notícia que reportava há pouco tempo períodos de espera na ordem das 13 horas, e parecia-me o pior dos infernos dantescos.
    "E ao centro de saúde?" - insistia o marido. Voltei a recusar pelos mesmos motivos.
    No entanto precisava mesmo de ser vista por um médico, que isto não ia ao sítio só com chá e aspirina. A brilhante solução residiu em marcar uma consulta ao domicílio, e foi realmente o melhor: numa hora e meia, assim como prometido por telefone, tinha à porta a figura amável e zen do Dr. Arlindo.
    Eu que nunca tinha utilizado esta coisa das consultas ao domicílio fiquei fã. Fui examinada com todos os cuidados e amabilidades, sem pressas. O doutor diagnosticou-me uma faringite, passou-me um receita com antibióticos, xarope e paracetamol. Ainda me deu o número de telemóvel para que lhe pudesse ligar em caso de surgir alguma dúvida ou qualquer outra questão.
    O marido foi incansável: veio à hora de almoço, trouxe-me almoço, foi passear o Kiko e foi à farmácia aviar a receita. Durante dias foi ele a tratar do nosso jantar, das compras, da louça e de tudo o que houvesse para fazer, inclusive de todos os passeios matinais e nocturnos com o cão, estando ele próprio ainda em recuperação.
    O Kiko foi excepcional: parecendo conhecer o meu estado, deixou de ser o espalha-brasas mexilhão do costume, e passou todos os dias deitado ao meu lado, a guardar-me.
    Os meus pais, idem: a minha mãe ligava-me todos os dias a oferecer-se para tudo e mais alguma coisa, e eu, como sempre, ciosa das minhas bactérias, a reforçar a ideia que o pior que lhes poderia acontecer é apanharem o mesmo que eu. Que nem pensar em correr o risco de lhes pegar, que isto podia até ser fruta da época, mas não era pêra doce.
    Passado quase um mês sinto-me de regresso ao mundo dos vivos, embora ainda não esteja a 100%. Imensamente grata por ter quem cuide de mim nestas alturas. Pela recuperação da saúde. Pela eficácia dos medicamentos.
    Pelo sim, pelo não, continuarão a ver-me na rua com trajes que mais parecem de alguém que vai para a neve. Podia ser pior: confesso que só não ando de balaclava por vergonha, que vontade não me falta.
    Espero não apanhar nada durante os próximos tempos. Honestamente, tendo em conta que já passei 1/12 do ano doente, acho que merecia estar imune a tudo e mais alguma coisa nos próximos dois anos, no mínimo!


    cromices #142: Como te compreendo, miúdo!



    Calhou observar, da janela, a tentativa de um dos meus vizinhos de sentar o filhote no carro.
    A criança ia visivelmente descontente. Chorava. O pai tenta acalmá-lo em vão. Solta um lamento: "Casa! Caaaaaaaaasa!"

    Como te compreendo, miúdo! Especialmente nas manhãs de Inverno.



    sábado, 7 de janeiro de 2017

    coisas sobre mim: Das resoluções de ano novo



    Não guardo a tomada de resoluções para o ano novo. Sou mais de improvisos.

    Não há quem me conheça tão bem quanto eu, portanto sei melhor que ninguém que não é por ditar uma lista de pontos, apelidá-los de algo tão sério quanto resolução, que me fará concretizá-los. Pelo contrário: sei tão bem o que a casa gasta, que fazê-lo seria convidar o meu lado rebelde a sabotar aqueles propósitos, só porque sim. Afinal quem sou eu para me dizer o que fazer?! Ou seja lá o motivo que leva os rebeldes a serem-no.

    Também faço resoluções, não têm é hora marcada para acontecer. Aparecem. Entenda-se por estas alterações, grandes ou pequenas, que começam no pensamento e derivam na acção, motivadas por um qualquer desejo. É comum e bastante popular o desejo de se querer ser simplesmente melhor.

    Há mais ou menos década e meia, adoptei como resolução que iria sorrir mais, sorrir muito, sorrir sempre, independentemente de receber esses sorrisos de volta. Hoje, essa resolução é-me intrínseca, faz parte mim, e nem me imagino a conseguir ser de outra maneira.

    Mais ou menos na mesma altura decidi igualmente que iria tomar atenção nos pequenos detalhes do mundo, procurar beleza nas pequenas coisas, reparar em flores, pequenos pormenores que nos passam geralmente despercebidos. Isso deu-me combustível para ultrapassar uma das épocas mentalmente mais desafiantes e complicadas que já tive. E hoje é uma das minhas filosofias de vida.

    Também passei a dizer mais vezes "amo-te". Não precisa ser literalmente um "amo-te", pode ser outra qualquer expressão, mesmo que meio tonta mas que o expresse. Faço-o todas as manhãs quando o marido sai para trabalhar, por exemplo.

    Este ano, após ter abordado uns vizinhos sobre algo que me incomodava grandemente, surgiu mais uma. Na minha mente tinha imaginado um diálogo racional e sereno. Saiu uma discussão emocional. Não gostei.
    Como nunca mais quero perder a serenidade, independentemente do que se passa do lado do receptor, então decidi, que quando estou "naquela semana" em que por questões sobretudo biológicas e hormonais sou toda emoção e temperamento, então basicamente vou fugir de diálogos, debates, negócios, reuniões e etc durante essa altura.
    Estou resoluta.




    quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

    cromices #141: Se eu abrisse um restaurante...



    ... seria, decididamente, um restaurante para cães.

    Todos os dias, desde há cerca de 2 anos, que preparo almoço e jantar para o Kiko. Em todas as refeições ele reage como se lhe tivesse preparado o melhor maná do mundo, tal a satisfação.

    Com a precisão de um relógio suíço, quando a hora da refeição se aproxima, vem-me lamber a boca, (é assim que os lobinhos pedem comida à mãe loba), fazendo uma espécie de choradinho. Segue-me até à cozinha e fica sentado no tapete onde temos as suas malgas, completamente vidrado em todos os meus movimentos.

    O par de minutos em que coloco a malga no parapeito da janela, para que a comida esfrie um pouco, a excitação é tanta que as pernas lhe tremem.
    Quando me vê aproximar para finalmente lhe servir a refeição, dá um par de voltinhas antes de aspirar tudo em segundos.
    Já o vi comer inúmeras vezes, e continua a dar-me um prazer indescritível.
    Deixa a malga impecável, sem qualquer migalha. Arrota. Vem-nos lamber as mãos, e volta para dar mais umas lambidelas na tigela. Passa os 5 minutos seguintes a lamber-se e a abanar a cauda.

    Nunca cozinhei para nenhum humano que o fizesse. Que fosse tão efusivo e agradecido à "cozinheira", que nunca reclamasse ou fizesse cara feia ao que lhe aparece no prato, seja porque não lhe apetecia aquilo ou qualquer outro motivo.

    O Kiko acabou de almoçar há minutos: salmão cozido com batata doce. Não há nada mais básico que peixe cozido com batatas, mas todos os dias faz-me sentir como uma finalista do masterchef.

    Os cães rulam! Ponto.



    terça-feira, 3 de janeiro de 2017

    coisas que recomendo: Como protegem os vossos aparelhos?



    Já contabilizaram quanto têm investido em aparelhos eléctricos na vossa casa, desde a televisão (ou televisões), sistema de som, computadores, consolas de jogos, etc?

    Mesmo que não tenham produtos topo de gama, os mais recentes e avançados que o mercado tem para oferecer, seria bastante dispendioso e nada agradável ter que substituir um ou vários, ou ter que esperar até ser possível adquirir novos, certo?

    Pois bem, uma regra que deveria ser seguida religiosamente em todas as casas, é a de ter os aparelhos ligados, (pelo menos os de maior valor), a tomadas com fusível.



    Estas tomadas protegem os equipamentos a ela ligados de picos de corrente, sobrecargas que os podem fritar. Basicamente elas "sacrificam-se" no lugar dos aparelhos. No caso de suceder um desses picos, o fusível da tomada rebenta e esta deixa de funcionar. Literalmente, morre. De vez.
    O preço das mesmas depende da qualidade e do número de saídas, mas não são baratas: contem gastar umas boas dezenas de euros. Mas mais vale perder uns cinquenta euros, do que perder um aparelho ou um conjunto deles, na ordem das centenas ou até milhares.

    Ainda ontem, do móvel de televisão, veio um som que parecia algo a fritar. Foi o fusível da tomada. Menos mal, que poderia ter sido uma perda tão maior não tivéssemos estes cuidados.