quinta-feira, 21 de setembro de 2017

cromices #154: Um ritual de claridade



Não sei viver sem música. Sempre senti a necessidade de acompanhar todos os momentos com uma banda sonora, sem esquecer de dar alguns momentos ao silêncio, já que este é em si um bálsamo, um ritual de higiene para a mente, tal como o duche é para o corpo.

Nada disto é pouco usual ou peculiar. Acho que a maioria das pessoas gosta de ouvir música em variadíssimas ocasiões, e até a usa como uma ferramenta auxiliar enquanto trabalha, enquanto descontrai, e em outros momentos.

Talvez o que mude de pessoa para pessoa seja a escolha de repertório, o que cada um ouve em cada situação.

Sendo algo que já que fiz inúmeras vezes, mas em piloto automático, ontem apercebi-me conscientemente que quando quero/ preciso entrar num estado de acuidade mental, essencial à análise e resolução de problemas objectivos, a minha escolha recai no heavy metal. E nada como começar com um dos hinos de guerra dos Manowar, é que lá por ser uma batalha travada no campo do intelectual e do burocrático, não deixa de ser uma.



sábado, 16 de setembro de 2017

coisas da casa: Ventosas rulam!



Se passarem pela Ikea, na secção de apetrechos para casa de banho, nas proximidades das cortinas de duche e afins, encontrarão uma secção de linear com acessórios com ventosas, de cestos a toalheiros.

Quando os encontrarem notarão que uma das suas características é o seu design. Sim, estão longe de serem a coisinha mais bonita e estilosa, mas como se costuma dizer a beleza não é tudo, especialmente quando há outros atributos que a suplantam. Neste caso a função ultrapassa em muito a forma.

Se forem como nós, pessoas que detestam sequer a ideia de andar a furar paredes, especialmente as revestidas a azulejo, encontrar acessórios com ventosas (daquelas que funcionam, e não andam a descolar-se por dá cá aquela palha, que é o principal motivo porque não comprava coisas com ventosas há uma vida) é tipo a invenção da pólvora.

Optámos por alguns itens da gama Stugvik : uns toalheiros que ainda possuem a vantagem de serem extensíveis, (que é outro conceito ao qual me rendi com o varão da cortina de duche, que sim, cai muito de vez em quando, mas quando isso acontece é algo que se resolve em menos de um minuto e não implica ficar com uma parede estragada), uns ganchos para panos de cozinha, pegas e luvas, copo para escovas de dentes e um cesto.

Encontrámos um segundo propósito para o cesto. Não serviu para a ideia original de suportar shampoos e gel de banho, mas está a funcionar lindamente na cozinha, para colocar o detergente da louça e esfregões.

Agora gostava de encontrar exactamente o mesmo conceito, mas aplicado à serventia de pendurar quadros e outras peças decorativas nas paredes.


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

cromices #153: Eu, a pior cábula do mundo.


No total devo ter recorrido a cábulas não mais que meia-dúzia de vezes. Todas após o ingresso no ensino superior.

Aliás, se há coisa que me arrependo foi de não ter usado cábulas durante todo o meu percurso académico. Justifico-o com dois motivos:

1) O ensino de qualquer matéria há-de ter, (a meu ver), como principais objectivos a compreensão da mesma, a apetência para aprender mais, e o desenvolvimento da autonomia que permita a busca solitária pelo conhecimento ao longo da vida. Não há argumentos que justifiquem a validade da prática de decorar matéria de vários volumes, para depois chegar a um exame e debitar os mesmos para uma folha.

2) Tivesse eu adquirido prática nessa bela arte da cábula, não me teria sentido tão desajeitada e à rasca quando cedi à sua necessidade.

Deixo o meu agradecimento aos professores, que perante a minha falta de jeito e atrapalhação, ao nível de um Mr. Bean, optaram por fechar os olhos.

Deixem-me então partilhar um episódio para que percebam o porquê de me intitular a pior cábula de sempre.

1) Sala de aula cheia. Turma preparada e à espera que chegassem os professores para iniciarem todo o processo de exame. Eu, muito mais nervosa que o costume porque levava cábulas, sentia uns calores tremendos, e por causa dos nervos deu-me um ataque de riso quase histérico. Simplesmente não conseguia parar de rir.
Solta um colega: " O que se passa com a Ana?"
Retruca outro: "Está nervosa, trouxe cábulas". - "Ahhhhh, ok!"
Um mais próximo, passa-me a mão no ombro: "Respira fundo, vai correr bem."

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Lições da minha infância: A freira, os doces de alcaçuz, e a lição aprendida ao contrário.



Sempre que o meu pai regressava a casa do seu trabalho além-fronteiras, aproveitava a espera no aeroporto para se abastecer nas lojas duty free.
Se era obviamente uma ocasião feliz ter o meu pai em casa, saber que ele regressava com um carregamento de chocolates e outras coisas boas era ouro sobre azul.
Isto é mesmo o mundo através dos olhos de uma criança de dez anos.

Numa dessas ocasiões, houve uma novidade que me despertou mais a atenção que qualquer outra coisa: um saco de doces de alcaçuz, rolinhos numa miríade de cores gulosas com um recheio escuro.
Mal vi o rótulo reconheci o termo "liquorice" de o haver ouvido na tv, o que aumentou o meu interesse. Afinal ia experimentar algo de outra cultura, e isto há quase trinta anos não havia a oferta que temos hoje, em que em quase qualquer loja se encontra quase tudo de todo o lado.

Experimentei um, dois, e talvez o terceiro, e concluí que infelizmente alcaçuz não era para o meu palato. Os meus pais foram da mesma opinião.

Pensei que poderia haver quem gostasse. Que lá por eu não gostar, não significava que não fosse bom. Então lembrei-me, na ingenuidade própria da minha idade e na melhor das intenções, de levar aquele saco de doces para partilhar com a minha turma. Achei que seria positivo os meus colegas experimentarem algo de novo, quer gostassem ou não. Se pelo menos um deles gostasse do sabor era missão cumprida, bem melhor que os deitar fora só por não sermos apreciadores lá em casa.

Este episódio, historieta tão pequenina, desinteressante e irrelevante, ficou-me somente na memória por ter dado mote a duas lições: a que me tentaram ensinar, e a que realmente aprendi.

Confrontada pela rambóia de vinte e tal crianças a fazerem caretas com bocas cheias de alcaçuz, a Irmã achou por bem transmitir-me a lição que gesto bonito, assim mesmo bonito e de valor, é dar aos outros aquilo que mais gostamos, aquilo que consideramos que temos de melhor.

Ouvi caladinha. Abri os ouvidos, mas os dois, que é para aquilo poder entrar a cem e sair a mil.
Em primeiro lugar, porque claro que não gostei da desvalorização da minha boa intenção. Não esperava palminhas, mas um "olha, não gostei, mas obrigada na mesma" fica sempre bem.

Em segundo, porque mesmo só com dez anos, achei que a mensagem que me tentava incutir era do mais hipócrita que há.
Que era mesquinho exigirem-me, de certa forma, que eu partilhasse as minhas coisas favoritas, com um grupo de pessoas que nunca trouxe nada para partilhar.
Que ninguém, por exemplo, compra roupa nova e a doa, ficando a servir-se daquela que já tinha por casa, e que já nem lhe serve.

A lição que apreendi resume-se no velho adágio "nenhuma boa acção fica sem punição". Nunca mais levei nada para partilhar.






quarta-feira, 23 de agosto de 2017

coisas de jogar #10


Horizon Zero Dawn





Vida de cão: sumos para cães



Qualquer coisa que tenha adição de açúcares não deve ser dada aos animais. Nem sequer são uma boa opção para a nossa saúde, muito menos para a deles, por causa do seu metabolismo.
De vez em quando, como miminho, damos um bocadinho de sumo ao Kiko, mas daqueles que são são somente fruta espremida, sem qualquer corante nem conservante. Ele adora o de melão.

É uma escolha mais saudável quando em comparação com qualquer néctar ou sumo, que lhes sabe tão bem quanto a nós, especialmente em dias de calor. Mas sem exageros, nem na dose nem na frequência.

Coisas que me irritam: Da irresponsabilidade...



Temos por ritual, mal o marido chega a casa, de nos sentarmos na varanda a tomar um café e a falar sobre o nosso dia, aproveitando o bom tempo e aquele recanto que se tornou agradável graças às plantas, que cheiram bem, e que tanto cresceram, providenciando-nos assim alguma privacidade.

Não fosse esse hábito não teríamos dado conta que houve, durante o dia, um qualquer condutor incauto que embateu no candeeiro de iluminação pública.
Não seria nada de mais, nem motivo para alarme, não estivesse, graças ao embate, aquele grande globo de vidro e metal inclinado e prestes a cair no chão, somente apoiado numa extremidade da lâmpada.
Isto numa praceta bastante movimentada, onde passam constantemente veículos, pessoas, (muitas crianças), e animais. Agora imaginem aquele enorme apêndice cair em cima de alguém, que pelo estado da coisa seria algo para não tardar muito a acontecer.
Contactei imediatamente com a linha de avarias da EDP e comecei a exposição com "houve um otário...", e nunca senti que alguma vez o adjectivo me tivesse servido tão bem na comunicação.

Porque, meus amigos, bater toda a gente bate. Pode acontecer a qualquer um, e a isso chama-se aselhice, inexperiência, distracção, azar até. Mas ser irresponsável ao ponto de se causar o dano e não requisitar a intervenção da EDP, estando-se nas tintas para os outros, e para a desgraça que a queda daquele globo poderia causar... A alguém assim é até elogioso e caridoso ficar-me pelo otário.

O atendimento foi impecável, e por sorte o piquete estava nas proximidades, o que ajudou a que viessem resolver a situação em tempo recorde.

Agora só queria identificar a pessoa para lhe soletrar a palavra "O" na cara.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Vida de cão: Da diarreia...



Desde ontem que o Kiko anda com diarreia.
Felizmente não demonstra sinais de qualquer má disposição, nem apatia, nem perda de apetite, nem diminuição da vontade de brincar, nem alteração do consumo de água. Pronto, nada diferente do habitual, não fosse o que anda a defecar.

Ontem, como era bem cedinho, não me dei conta que ele se tinha aliviado no escritório. Voltei preocupada da nossa caminhada, porque como era possível passada toda uma noite aquele miúdo não ter vontade de fazer?!
Afinal já tinha feito. Em casa.

Antes da volta do almoço, idem. Hoje, voltou-se a repetir, tanto de manhã, como mesmo há pouco.

Nunca lhe ralho nem o castigo por fazer em casa. Pelo contrário, digo-lhe que não faz mal, que está tudo bem, e que ele é lindo.
Em primeiro lugar, porque não o faz por hábito mas somente quando se sente mal, doentinho, quando não o pode evitar.
Em segundo, porque na urgência de se aliviar que qualquer ser vivo sente durante uma diarreia, ele é incrivelmente inteligente e asseado ao escolher o chão da divisão onde menos circulamos, ao invés de o fazer em cima ou ao lado da cama, do sofá, etc.

Neste momento está a arrefecer uma canjinha de peito de frango, arroz e cenoura, que será o seu almoço, seguido de umas rodelas de banana.






quarta-feira, 9 de agosto de 2017

cromices #152: Do não sair de casa...



Em criança era muito "caseira". Lembro-me que por vezes os meus pais tinham que insistir comigo para sair de casa, nem que fosse só até à praceta para brincar com os miúdos da vizinhança.

Com a mudança de idade, especificamente quando estava em plena adolescência e nos inícios da idade adulta, a situação reverteu-se completamente. As queixas eram sobre o quão pouco parava em casa. E eu encolhia os ombros naquela do: "Afinal em que ficamos? Decidam-se!"

O meu marido costumava queixar-se que eu andava sempre a melgá-lo para sair, muitas vezes com a desculpa de ir beber um café algures, por vezes tarde e a más horas. Para me dissuadir, um dia apareceu com uma máquina de café.

Agora queixa-se que nunca quero ir a lado nenhum, que não quero sair de casa.

Confesso que desde que o Kiko entrou nas nossas vidas voltei a dar muito valor aos momentos do dia em que posso estar em casa. Porque, em minha defesa, há que dizer que na verdade saio muito de casa.
Lembro que tecnicamente, basta estar-se do lado de lá da porta para ser considerado como tal.

Ainda hoje, que me calhou a volta matinal do Kiko, cheguei às 8h da manhã com 4,5 km de caminhada feitos.
Quando for  ao supermercado aqui do burgo, mais 3km. Se incluir as voltinhas quotidianas pelas lojinhas de comércio tradicional e serviços, mais uns 3 ou 4, e é porque tenho tudo aqui ao lado.
Mais a voltinha pós almoço do miúdo, que nunca é menor que mais outros 3km.

Portanto, para alguém que supostamente não sai de casa, num dia normal, até às 18h, já conta com cerca de 14 km feitos. Excluindo todos os passinhos que damos dentro das lojas, e dentro de casa, que pensando que não eram mais uns pózinhos.

Junte-se um dos dias em que faço bingo por ter o cartão totalmente cheio, juro que não é difícil atingir ou superar a marca dos 20km. A saúde e forma física agradecem, mas se me querem convencer a sair (mais) de casa o truque reside em atraírem-me com programas que metam "pés pró ar" em cenários bonitos, muito dolce far niente, e comida.
Para alguém com a minha rotina convites para ir caminhar, ou exercer outra qualquer actividade que implique esforço físico, ou que seja basicamente passear o cão num cenário diferente, é meh.

Não é que não acabe por apreciar, mas a atitude com que aceito alinhar é muitas das vezes mais de resignação do que propriamente entusiasmo.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

coisas de ver #65



Maluco Beleza

Nas últimas semanas, tem sido o Unas e os seus convidados a servirem-me de companhia aos serões que passo em frente à maquineta. Primeiro com uma frequência algo esporádica, agora a um ritmo diário. Cativou-me. É uma boa demonstração do quanto vale a pena embarcar em projectos independentes, pelo gozo e a teima de se ser livre, de se fazer o que a real gana nos dita.
Com uma boa, diversa e já completa lista de convidados, só desejo que este projecto tenha uma longa vida, pelo puro egoísmo do gozo que me anda a dar.
Atenção aos sensíveis e fraquinhos que usam de linguagem sem filtro.

Ficam aqui uns exemplos:











segunda-feira, 7 de agosto de 2017

cromices #151: A minha pessoa, uma influência nefasta para criancinhas desde mil novecentos e troca o passo...



Na recta final do nosso passeio, (meu e do Kiko),  há uma menina na sua bicicleta que nos olha fixamente.
Dirijo-lhe um olá, ao que ela responde com um "quem és?", que é uma questão à qual nunca soube responder objectivamente porque me lembra sempre o "quem sou, de onde venho, para onde vou."
Consegui travar a tempo o comboio do pensamento filosófico: - "Como assim? Sou uma pessoa daqui, que não conheces".
Retruca a menina, inquisitiva sobre o facto de a ter cumprimentado se não a conheço. E a mim pareceu-me desadequado explicar a uma miúda dos seus 9/10 anos que é o meu mecanismo de defesa contra o constrangimento, o desconforto que emana do momento em que duas pessoas se entreolham na rua, (um momento que derivado da relatividade do tempo parece durar eternamente), e decidem por fim prosseguir caminho, ou desviar o olhar, optando por fingir que não deram pela presença do outro.
Não mata, mas mói de tão estranho que é. É-me muito menos doloroso o reflexo de distribuir olás e sorrisos a torto e a direito.
Disse-lhe o fazia por ser educada, e por estarmos numa aldeia.

Passados alguns minutos em que a menina esteve a abraçar o Kiko, aparece uma amiga minha.
A menina não a conhece, mas vocalizou um olá na sua direcção.

Espero que isto de andar a cumprimentar meio mundo, com a justificação de ser por boa educação, não lhe mereça duas nalgadas.


coisas da casa: Shangri-La, a filosofia do bliss e a casa de hóspedes pt.1

(Disclaimer: as fotos utilizadas para ilustrar este texto foram retiradas da internet. Gracias.)



Será mais por vício, ritual de escapismo, ou até mera curiosidade em ver se existe no mundo real a materialização daquilo que considero a casa ideal, o meu Shangri-La,  que me leva, volta e meia, a esmiuçar todo e qualquer site de mediação ou promoção imobiliária que me ocorra.
Lembro-me de um quarto motivo: é que existindo, não se deseja que esta escape. Até pode escapar, mas que seja por um motivo sólido, que por desatenção ou desconhecimento seria realmente um infortúnio.

Até à data nunca me deparei com um anúncio que me indicasse existir a materialização fiel do produto imaginado.

O mercado apresenta-me casarões em lotes minúsculos, e eu procuro exactamente o oposto: uma casa de menor área num lote que se pode considerar de generosas dimensões quando se compara com o que há por aqui.
O mercado apresenta-me casas com uma grande área total mas divididas em minúsculas divisões, que perante as minhas necessidades e gosto se tornam redundantes, inúteis e pouco práticas.

Imagino uma casa térrea, em rústico tradicional português, daquelas com bons ossos, boa estrutura, como aquelas pessoas que atingem o auge da beleza após algumas décadas, num feliz amadurecimento. Duas ou três colheres de sopa de carácter, não mais, para deixar espaço a uma nova e pessoal interpretação. Porque sei que algumas obras são inevitáveis, não gostaria é que isso implicasse uma total reconstrução do espaço. Algumas modificações, melhorias, inclusão daqueles pormenores que entram no campo do gosto pessoal e são necessários para transformar algo em nosso, sim, mas não acredito ter a tolerância e stamina necessárias para passar por todo um processo com início numa demolição.


Um pé direito não abismal, mas algo generoso: dizem que tectos baixos oprimem a psique, que limitam os sonhos e as aspirações, já os demasiado altos dão dores de costas a quem não delega as tarefas domésticas.
Ainda dos tectos, variedade: abóbodas, abobadilhas, lisas ou revestidas a tijolo burro, tectos com vigas de madeira recuperada, sólidas, robustas, e de preferência exalando aquele perfume a cedro que tanto gosto.






Janelas assumidas, mais do que simplesmente buracos que cumprem a função de deixar entrar luz. Uma ou outra com bancos de pedra embutidos como nas casas de antigamente, as chamadas namoradeiras; um par de vitrais que pinte com várias cores a luz que entra. Nada de motivos palacianos, eclesiásticos ou modernistas.
Vestidas com portadas, (quem sabe até daquelas com pequenos corações recortados), e parapeitos com floreiras. Portadas de madeira nua, ou pintadas de qualquer cor que me apeteça. Talvez amarelo luminoso, azul celeste, verde floresta, ainda não me decidi.


Janelas eficientes e estrategicamente colocadas: dos chamados túneis de luz ou janelas cúpula, que permitem a entrada de luz natural pelo telhado, a serem usadas sem parcimónia. Porque permitem aproveitar a luz natural para iluminar todo e qualquer recanto, durante todo o dia sem acréscimo na conta da electricidade. Aliás, até ajuda à poupança, (nas vertentes financeira e ecológica), e permite o luxo de se observar o céu nocturno no conforto de casa.
Obrigatoriamente uma na casa de banho - de vez em quando quererei banhos de imersão iluminados pela lua cheia.




Só porque sim, apetece-me uma janela em frente à sanita: soa-me a felicidade suprema ir à casa de banho enquanto se contempla um cenário de idílicos verdes, mas em total privacidade.
Pode parecer estúpido, mas conhecem a expressão "bliss"? O grande objectivo é mesmo esse: aplicar a filosofia em que se transformam todos os recantos da casa e actos mais básicos da existência em momentos prazeirosos.

Cantarias, aduelas e todos os rodapés em granito bujardado, que eu gosto do aspecto rústico, genuíno, com textura e um aspecto intocado. Se der para reaproveitar pedra antiga, melhor ainda.

O mercado apresenta-me casas de vários andares e mais divisões que aquelas que preciso ou quero, em lotes ridiculamente pequenos e a preços estapafúrdios filhos da especulação, muitas a precisarem ainda de uma modernização ou até renovação total. Nada disso me serve ou tenta.

Não preciso de uma casa enorme - demasiado grande só servirá para dar mais trabalho e despesa, tanto em impostos como em manutenção. Com vários andares corro o risco de não ser apropriada para a velhice - escadarias não são amigas do séniores, e eu faço questão de só mudar, (se mudar), de casa mais uma vez na vida. Também por isso não pode ser "uma" casa, mas "a" casa.
Nem grande, nem demasiado pequena. Aconchegada sem ser acanhada, soa-me bem.

Para duas pessoas e um cão basta um único quarto - mas que seja um bom quarto, com walking closet, (que eu teimo em não dispensar porque entre roupa, sapatos, roupa de cama e atoalhados há muito que arrumar e eu prefiro uma divisão quase espartana, clean, sem armários à vista).
O meu marido, (e há-de haver mais pessoas como ele), revira os olhinhos quando falo de walking closets como se fosse fruto de caganças. Pelo menos até ao momento em que lhe expliquei que a base de um bom walking closet é simplesmente espaço, alguns metros quadrados. Que com alguma criatividade e engenho fica-se com uma coisa bonita e funcional pela fracção do preço de um bom armário, com muito mais arrumação e que se pode ir modificando de acordo com as nossas necessidades.

Um quarto sobretudo com espaço de circulação suficiente em redor da cama para circular confortavelmente uma cadeira de rodas ou qualquer outra geringonça geriátrica, (ou tão simplesmente para andar com o aspirador sem desancar o bicho nas esquinas dos móveis).
Porque desconhecendo o que a vida nos trará, penso na velhice. Não só penso como planeio, tal é a minha natureza.

Gosto que seja a cor ou textura a encher o espaço ao invés de traquitanas, por isso a paleta usada aqui poderia bem ser azul meia-noite com uns toques de verde pavão e caramelo, ou não. Ou um quarto com paredes de pedra. Apetites... Não devíamos ter receio de brincar com a cor e materiais.


As habitações normalmente não estão pensadas para acompanhar as pessoas em todos os estágios da vida e é pena, para além de ser insensato e estúpido. Quero uma casa que nos possa servir bem em todas as idades e condições.

Assim sendo, e seguindo a mesma filosofia, também nos basta uma única casa de banho, juntando num amplo e luminoso espaço um duche de boas dimensões, banheira, e restantes sanitários. Linhas limpas, tudo muito funcional, pragmático e minimalista. Escolha de peças, revestimentos e afins com base na intemporalidade. Preocupação com uma boa circulação de ar para evitar acumulação de vapores e humidades. Escolha de materiais de pavimento e revestimento de grandes proporções para ter o mínimo de juntas possível - há coisas melhores na vida onde gastar o tempo do que andar com uma escovinha a esfregar mil juntas de azulejos.



Cozinha de fusão: rústica em dois terços do seu dna, o resto simples mistura daquilo que se gosta, quer tenha por base o industrial, minimalista, ou qualquer outro estilo.

Não gosto de exaustores, mesmo daqueles que nos cativam pela beleza das suas linhas depuradas e ultra-modernas. Aquele barulho, embora variável de modelo para modelo, mas constante e inevitável tira-me a tesão para cozinhar. Tornar inaudível aquele "plop... plop... plop" que sai da panela, que nos indica que se está a atingir aquele ponto de espessura e depuramento desejado, por aquele "vuuuuuuuuum". Epá, não!
Gostaria de uma chaminé grande, teatral. Larga o suficiente para que debaixo da mesma tenhamos espaço suficiente não só para a placa, como para uma zona de preparação e ter à mão especiarias, colheres de pau e mil outras coisas da arte dos tachos.
Se precisarem de uma referência para perceber melhor do que falo, lembrem-se das chaminés das cozinhas palacianas / conventuais ou das antigas casas pombalinas.
Acho-as lindas e só de as ver dá-me vontade de ir para a beira do fogão!



Uma ilha nas mesmas proporções, com tampo em mármore branco. Espaço onde qualquer receita poderá ser confeccionada a duas, quatro ou muitas mãos.
Base de armários em alvenaria, portas que passam despercebidas.
Um par de armários altos -  louceiro e despenseiro encastrados.


Abdicar dos tradicionais armários de cozinha de parede em nome da harmonia. Demasiados estímulos ao nível dos olhos, especialmente quando desinteressantes esteticamente, dão a sensação de poluição visual, de claustrofobia, de se estar rodeado de tralha e de que o espaço se comprime.
Preferia usar esse espaço para mais janelas, um pequeno jardim vertical de aromáticas, um par de objectos decorativos como umas cerâmicas Bordallo Pinheiro ou aqueles potes antigos de farmácia...

Comunicação com a sala através de uma grande porta de correr tipo celeiro, dando a opção de se ter um todo um espaço comum, ou divisões separadas conforme a necessidade, vontade, momento.



As refeições tomadas sobre uma mesa com um tampo feito de um disco de árvore, absolutamente perfeito na sua natural imperfeição. Iluminada por lâmpadas Edison.



Frigorífico, máquinas de lavar, secar, detergentes, objectos vários de limpeza, e afins tudo encontra o seu lugar numa divisão adjacente à cozinha, - um misto de despensa, com lavandaria, com mud room - que por sua vez tem a sua porta para o exterior, e seria o local perfeito de entrada em casa nos dias chuvosos, quando se vem com sapatos sujos, ou acompanhados de um cão que precise urgentemente de um banho.


Falar da que seria a minha casa ideal é acrescentar-lhe obrigatoriamente uma torre. Com janelas em toda a volta para que se possa acompanhar toda a viagem do sol, do nascer ao ocaso. Para ver as estrelas, com ou sem telescópio.


Com varanda em seu redor, e uma porta de acesso a um pequeno terraço. Voltando à filosofia do "bliss", porque não perder um bocadinho a cabeça ,e colocar lá um jacuzzi para banhos de bolhinhas ao pôr do sol?
 

Tentar praticar ao máximo a autonomia e eficiência, a começar pela energética, através de painéis solares fotovoltaicos, uso de leds, candeeiros solares, aparelhos eficientes...
Usar de um bom número de boas práticas ecológicas. Ter um contentor de compostagem onde os resíduos orgânicos possam ser reaproveitados como fertilizante natural. Quando falo de resíduos falo das sobras da cozinha. Acho que não me estou a ver a usar uma casa de banho seca.
Em matérias de casa de banho sou muito cocó - é o lado virginiano picuínhas: de tal forma que nem me imagino confortável numa casa desligada da rede de esgotos, com fossa séptica. É bom cultivar o desapego, e parece-me muito mau feng shui viver paredes meias com um contentor de merdum. Nheca, nheca, nheca!


(continua...)


segunda-feira, 31 de julho de 2017

coisas sobre mim: Diz-me quem te rodeia...



Sinto-me no meu melhor quando noto que estou rodeada de pessoas que considero melhores que eu. Mais sábias, mais serenas, mais ponderadas, mais organizadas, mais inteligentes, sobretudo mais correctas.
A energia que emana dos outros afecta-nos... afecta-me. A qualidade dessa energia inspira ou "desinspira", e tem sem dúvida o condão de despoletar uma resposta, na maioria das vezes, ao mesmo nível.
Para mim não existe maior e melhor motivador que sentir boas energias em meu redor. Não há melhor combustível que sentir a necessidade de dar o que tenho de melhor e mais luminoso para estar ao nível daqueles que me circundam. E não se trata de competitividade, a sede de ser "prima inter pares", mas simplesmente do fruto da reciprocidade, de pagar com bem o bem que me fazem.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

coisas de opinar: Até à próxima, Chester, ou os sapatos dos outros.


Não demonizo o suicídio, nem quem se suicida. Aliás, sempre me chocou como os suicidas são ostracizados pelas religiões, por quem clama ter uma linha directa para com o divino e que teriam a obrigação de ser a candeia do amor incondicional.
Obviamente que também não o celebro nem o incentivo, - a vida deveria ser uma benção, uma vitória e um motivo de celebração. Mas, haverá algo pior e mais digno de ser lamentado do que estar cá, estar vivo mas só aparentemente?

Portanto entendo, empatizo e respeito. E sobretudo por isso não teço juízos de valor, mas sinto a necessidade de vir para aqui, (e desculpem a falta de humildade), abordar este tema pouco simpático, porque sinto que é necessário esclarecer que quem parte nunca o faz abruptamente, que não o faz por desamor à vida, mas sobretudo, presumo eu, pela urgência urgentíssima de um novo começo, uma nova vida, uma nova encarnação, na esperança de uma nova oportunidade, da mesma forma como se faz reset ao computador.

Sim, lamentemos todas as partidas. Mas troquemos o julgamento pela compaixão. Diz um ditado que nunca poderemos saber como é a vida de alguém até andarmos nos seus sapatos. Se isto fosse realmente fazível, acho que chegaríamos à conclusão que todos os sapatos são diferentes, e se há quem pareça ter um andar fraquinho, desajeitado, diferente, se calhar é porque a vida lhe serviu sapatos de chumbo.

A todos aqueles que decidiram partir mais cedo, desejo-vos que realmente existam novas oportunidades, e que a vida nunca mais vos dê dores de pernas.

A nós que ficamos, vamos lá construir um mundo onde possamos andar descalços, sim?






terça-feira, 18 de julho de 2017

Sabedoria dos intas em 10 segundos #43


Por cá não mora gente ciumenta. Por cá mora quem não tem pachorra para com gente ciumenta.

Não me canso de dizer que ciúme não é uma qualidade afectiva, mas um nariz ranhoso, uma dor de cabeça, uma obstipação. Ou seja, um sintoma que demonstra que se sofre de um, dois ou dos três seguintes males:
1) Imaturidade emocional;
2) Doença psicológica;
3) Presença de pessoas tóxicas;

Não vale a pena aprofundar as duas primeiras alíneas.
Quanto à terceira, a cura passa por uma dieta. Tão simples quanto isto:
- Se sentem que têm motivos para ter ciúmes porque a pessoa com quem estão não é efectivamente de confiança, então porque estão com alguém em quem não podem confiar?
- Se no vosso círculo social existe aquele/a cromo/a que se esquece do mandamento fulcral que dita que pessoa comprometida passa a ser assexuada, e gosta de mandar charme a torto e a direito, qual barro contra a parede, não acham que já têm idade para saber escolher melhor os/as amigos/as?

O mundo divide-se também na perspectiva que se tem sobre os ciúmes. Há quem diga que é especiaria que apimenta a relação, eu digo que não é mais nem melhor que pimenta no cu.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

cromices #150: Arigato, merci, thank you



Uma pessoa adapta-se a tudo, inclusive a contornar situações que só sucedem a quem vive numa zona considerada turística.
Em passeata nocturna com o Kiko pela zona do centro histórico, (onde as ruas não são ruas, mas vielas estreitas de declive acentuado, forradas numa calçada portuguesa tão luzidia e encerada pelos milhares de pés que a atravessam que são um autêntico escorrega, cuja travessia com cão exige já um nível proficiente de destreza se o objectivo não for derrubar turistas aos magotes, como numa partida de bowling humano), a pessoa vê a alguns metros de distância que a estreita via está intransitável. Bloqueada por um tampão de gente, de dezenas de turistas, que não andam nem deixam andar.

Uma pessoa ainda fica ali parada uns instantes, com a esperança que alguém perceba que tem que se desviar. Mas não, é pedir muito.

Como uma pessoa quer e tem que passar, pois quanto mais tempo na descida encerada aumenta em muito a probabilidade de perder um par de dentes, há que ser despachada. Então quase sem qualquer esforço da minha parte para fazer uma voz sonante, que tenho bons pulmões e devo ter engolido um microfone, solto um "com licença, excuse me, excusez-moi, dá um jeitinho" - assim mesmo, de rajada, enquanto vou furando a multidão.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

sabedoria dos intas em 10 segundos #42: Quando em Roma, sê como Nero, ou as filhas de Marte.



Há tempo para a paz, e há tempo para a guerra. E mesmo que pareça o maior dos contra-sensos, momentos há em que não há nada como a guerra para nos trazer paz.
Um dos erros mais grosseiros das pessoas comuns é a fatal húbris em contar que seja sempre o mesmo a aparar as falhas, a chegar-se à frente quando quem o deveria fazer não o faz. Pensam que quem é correcto nunca o deixará de ser, porque é um apelo maior da sua natureza, mesmo que quase sempre isso implique sair lesado.
Nem nunca se imagina que a pessoa do costume mude de jeito, de maneiras, de coração. Aliás, qualquer mudança seria levada muito a mal, especialmente por aqueles que são sempre parte do problema, e nunca da solução.

Até que há um dia, em que se cheirando o fumo e adivinhando o fogo, a pessoa do costume decide ser como Nero, e deixar arder. Burn, motherfucker, burn!

E o que pode ser entendido como loucura, é da lucidez mais profunda.






segunda-feira, 3 de julho de 2017

Vida de cão: Auto-controlo



A três meses dos 3 anos, o Kiko está um menino crescido e já dá lições de auto-controlo.

Marido coloca-lhe à frente o prato onde repousavam dois suculentos bifes. Estoicamente, nem por um segundo ameaçou ir contra o comando que o "paizinho" lhe havia dado de "só cheirar".

Não fosse o espanador a rodar a 100 à hora, ninguém diria que ele gosta de bife.

coisas do condomínio: coisas que me custam horrores...



Acabei de colar no átrio mais um "recadinho". Desta vez sobre o não pagamento de quotas.
Se há coisa que me custa horrores é esta, por dois grandes motivos.

Primeiro, exaspera-me a sensação de ter que andar atrás de pessoas adultas, como se de crianças se tratassem, para que cumpram o mais básico dos deveres para quem habita em condomínio - o pagamento das quotas a tempo e horas. Com a agravante de todos terem passado pelo papel de administrador, logo terem sentido na própria pele o stress de ter que lidar com esta mesma situação.
Repetirem os comportamentos de que se queixavam é o cúmulo do non-sense, para não dizer outra coisa, e é algo que me faz muita confusão.

Em segundo, não tenho feitio nem à-vontade, não aprecio e causa-me um enorme desconforto ter que falar de dinheiro com as pessoas. Soa mal, fica mal, é horrível e grosseiro, ponto.
Desconforto elevado ao expoente máximo quando tenho que abordar pessoas que vejo todos os dias por serem devedoras. Catástrofe total quando uma dica subtil não repercute qualquer efeito, e não existe alternativa senão ser frontal, sem papas na língua.

Até me dá um nó no estômago só de imaginar que o texto exposto no átrio possa não ser ainda assim suficiente. Se assim for terei que recorrer a cartas registadas com aviso de recepção para informar da dívida, para que sirva de prova num tribunal, e/ou bater às portas tipo cobrador de fraque.

Ai vida!

sábado, 24 de junho de 2017

coisas que gosto: Weeee, saldos para geeks!



Entrar no Steam, e ver que começaram os mega saldos de Verão. Abrir a wish list, e todos os jogos que havia selecionado estão com desconto! Weeeeeeeee!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Pessoas de quem gosto: "A terra a quem a trabalha"



O sr. P. é um septuagenário aqui da aldeia.
Pertence ao cada vez maior grupo de pessoas que conheci, ou fui conhecendo melhor, graças ao Kiko e aos nossos passeios diários pelas ruas da localidade.

Cruzámo-nos num dia de Inverno, e lá fomos conversando rua acima, ao ritmo do Kiko e das suas deambulações pela relva.
O sr. P. tem um semblante amável, e uma postura escorreita que não deixa revelar a sua idade ao primeiro olhar.
Fala-me sempre da sua horta, com as nuances próprias de cada estação, e eu gosto de o ouvir, sobretudo pelo entusiasmo que coloca em cada frase, esteja a falar de couves tronchudas ou dos tomates que em meados de Junho já estão "deste" tamanho - e usa as mãos abertas para demonstrar o quão grandes são. De como uma boa meia dúzia deles já repousam no parapeito, a amadurecer ao sol.
Mal o conheci pensei cá para mim estar diante da prova viva de como o constante contacto com a terra, desde que seja genuinamente por paixão, gosto e prazer, é uma espécie de elixir da juventude. Que a Natureza retribui, com juros, a quem dela cuida.

O sr. P. mora numa das ruas limítrofes da aldeia, num aglomerado de casas abraçadas a montante por um vale. Algures nessa extensa linha de mato, fica a sua horta, num terreno - apressa-se a esclarecer - que não é seu, mas que não fosse este seu "passatempo", como lhe chama, estaria destinado ao silvado, embora tenha dono.
A última vez que me cruzei com este amigo, ainda não se adivinhava a enorme e dantesca tragédia de Pedrógão Grande, confessava-me a sua preocupação, partilhada por alguns vizinhos octogenários, perante a negligência dos legítimos donos dos terrenos que lhes circundam as habitações. Terrenos por limpar, com mato denso e silvas do tamanho de gente. De como uma sua vizinha, senhora idosa, lhe dizia que não fosse o sr. P. a passar com o trator e a limpar algum desses espaços, por sua iniciativa, usando do seu tempo e meios, o cenário seria pior.
Sublinhava que num desses espaços havia passado o trator fazia dois anos, e esse tempo bastou para que surgisse um verdadeiro matagal. Que era necessário voltar a limpar, e que não se vendo qualquer interesse por parte dos proprietários se sentia tentado a fazê-lo novamente, pensamento que leva ao justo desabafo da sua mulher: "Sempre os mesmos! Calha sempre aos mesmos!"

Contrapus que esse era o eterno dilema das pessoas íntegras e cumpridoras: ou se faz no lugar daqueles que teriam o dever de o fazer mas que nada fazem, ou se permite que o descalabro e o caos imperem com consequências para todos.

Nunca me fez tanto sentido o adágio propagandista que diz "a terra a quem a trabalha".


sexta-feira, 9 de junho de 2017

coisas de comer: Não foi amor à primeira garfada, mas hoje sou fã do conceito.



Falo dos restaurantes de buffet livre. Aqueles onde por um preço fixo e normalmente convidativo, os comensais podem servir-se sem restrições de todos os pratos, doces ou salgados, apresentados pelo restaurante.
A única regra, com a qual concordo plenamente, existe para evitar o desperdício alimentar: a quem tiver mais olhos que barriga é cobrado um extra. No último restaurante deste género a que fui o valor residia nos 18€/kg.
Este conceito veio para ficar e já existem locais que se especializaram em comida asiática, sushi, brunch, brasileira, tradicional portuguesa, etc.

Como é normal e esperado existem restaurantes melhores que outros. Os melhores serão, sem dúvida, aqueles que investem na qualidade dos alimentos e da sua confecção, na variedade, num bom serviço e no espaço. Se o conseguirem, o sucesso é garantido.

Tornei-me fã deste conceito porque este satisfaz muito mais critérios que aquela coisa de ser "enfarta-brutos". 
Penso que de todos é o que permite a fruição de uma refeição verdadeiramente casual e descontraída, sem aqueles compassos de espera que chegam a roçar o ridículo e o doloroso: aquele ritmo "senta- espera - trazem ementa - espera - fazer pedido - espera - trazem entradas - espera - trazem bebidas - espera - trazem prato - pedir carta de sobremesas - espera - trazem carta de sobremesas - espera - pedir - espera - trazem sobremesas - acaba-se de comer a sobremesa e tenta-se pedir um café - espera - pede-se café e já agora a conta - espera - trazem café - espera-se pela conta..."

No total acho que visitei um pouco menos de meia-dúzia deste tipo de estabelecimentos. O que visitei ontem na companhia dos meus pais passou directamente para o primeiro lugar da minha curta lista.

Basicamente a experiência foi irrepreensível:

- o espaço era giro, bem decorado, imaculado (inclusive as casas de banho), espaçoso (as mesas estavam à distância certa uma das outras, para que ninguém incomodasse ninguém nas constantes movimentações de e para o buffet);
- tinha estacionamento próprio;
- o serviço era organizado e rápido (havia sempre alguém preocupado em recolher os pratos sujos das mesas e a cuidar do buffet);
- muita variedade de enchidos, queijos, pratos quentes (peixes, carnes e vegetariano), saladas frias, doçaria regional e fruta;
- qualidade ( tudo o que provei, o que não foi mais que uma pequena fracção do que havia por lá, estava muito bem confecionado, o que é claramente um sinal que estes locais já não são só para quem dá valor à quantidade, mas sim também para quem valoriza a qualidade).

segunda-feira, 5 de junho de 2017

cromices #149: Se têm entre 20 e 35 anos e um nível médio de inglês, metam os olhos nisto!



No feed de uma rede social apanhei casualmente a publicação de uma revista dedicada às viagens. Esta anunciava uma oportunidade para uma dúzia de pessoas que me deixou a salivar: passar um ano a viajar; passar por 40 destinos como Honolulu, La Paz, Nova Iorque, Paris, Maputo, etc; ter todas as despesas pagas e ainda receber um salário na ordem dos 2500 euros. Em troca apenas a obrigação de relatar a experiência.

Não costumo invejar muita coisa, mas como sou humana, desta vez não consegui evitar. Caramba, pá, quando aparece algo que acho que me assentaria que nem uma luva, pimbas, estou velha demais!
Onde estavam estas oportunidades quando tinha 20 aninhos?!
Tivesse eu dado conta de algo assim nessa altura, e teria com todo o gosto tirado um ano sabático da faculdade para ir correr mundo, para além da vantagem que depois voltaria rica em experiências e com 30000 euros no bolso.

Portanto, miúdos que estejam a ler isto, avancem por vocês e em nome de todos nós, pessoas que a partir dos 36 anos são consideradas velhas!

O envelhecimento tem muito que se lhe diga. Pouco se pensa nisso a não ser que nos lembrem.

Então lá estava eu a fazer queixinhas ao marido, sobre esta cena de estar velha, e ele pergunta-me se estou melhor do braço, (no dia anterior tinha andado numa aflição por causa da tendinite).
 "Já passou." - digo-lhe.
 " Vês, então não estás assim tão velha!"
 " Pois... não fosse a dor de costas de hoje..."




sexta-feira, 2 de junho de 2017

Pessoas de quem gosto #8


Gosto tremendamente de quem possui o dom natural de entender que o instinto maternal/ paternal é algo que reside em cada um de nós, e não se dirige simplesmente aos filhos biologicamente gerados e paridos.
Que é mais universal que isso.
É a imensa capacidade de amar, de cuidar, que todos temos e que direcionamos a qualquer ser vivo que cative essa nossa faceta.
É Amor, ponto, e pode ser dirigido aos nossos filhos, aos filhos dos outros, a qualquer pessoa de qualquer idade, aos animais, às plantas, a tudo e a todos que despertem em nós esse lado. Porque o Amor na sua pura forma não cabe na caixinha pequenina que muitas vezes alguns de nós o querem enfiar, dê lá para onde der.

Também por isso, gosto da vizinha simpática que sorri para mim e me trata por "mãe do Kiko".






quinta-feira, 1 de junho de 2017

coisas do condomínio: Nunca digas nunca.


Oops, não resisti.

 Afixei mesmo um recado sobre a limpeza das áreas comuns do prédio. Na minha melhor diplomacia, usei expressões como "a intenção não é ofender nem embaraçar ninguém", "neste espaço que é a casa de todos nós" e " embora sejamos uns sortudos por poder delegar a limpeza das áreas comuns (...) não percamos o maravilhoso civismo que nos faz apanhar um papel do chão, ou ir buscar a esfregona caso...".

 Para não haver nada que apontar, e porque se lidera através do exemplo, antes de afixar o recado limpei eu as áreas comuns, com água quente e detergente xpto que limpa, desinfecta, higieniza e felizmente nos livrou daquele pivete horroroso.




coisas do condomínio: As palavras que nunca te direi.


Hoje de manhã quando saí de casa para o passeio matinal do Kiko, o meu nariz foi atacado por um pivete nas escadas. O interesse do cão no chão, maior que o costume, fez-me olhar com mais atenção e reparar num rasto de gotas, que se estendia de um dos andares superiores até à rua. Basicamente o que acontece quando o saco do lixo não veda bem e vai a gotejar.

Estou aqui com uma vontade tão grande de colar um recado na entrada que até me dá bichos carpinteiros e comichão. A parte racional diz-me que não, faz como a Elsa do Frozen: "Let it goooo".

Mas caramba, que vontadinha de deixar algo assim:

"Meus amores,

Sim, é verdade que temos um serviço contratado para a limpeza das áreas comuns, o que nos iliba dessa função e torna a vida mais fácil.
Mas, azares acontecem. Fazem parte da vida quotidiana. Nessas ocasiões, como por exemplo, ao trazermos um saco do lixo que deixa um rasto pelas escadas, não nos caem os parentes na lama se formos buscar uma esfregona para dar um jeitinho.

Obrigada"

quarta-feira, 31 de maio de 2017

coisas da Língua #2


Quando vi ou li pela primeira vez a expressão "talharia" confesso que ainda demorei um par extra de segundos para perceber que estava diante do descendente hipster do talho, vulgo estabelecimento que vende carne.

Durante esse lapso pensei que tinha surgido um qualquer novo restaurante especializado em receitas com talharim, a massa alimentícia com a forma de tiras finas. Afinal se há locais onde só se serve risoto, outros pregos, outros ainda camarão, (as opções quando nos dedicamos à exploração de um nicho de mercado são quase ilimitadas), porque não uma talharia dedicada ao talharim?
É que na minha cabeça isto continua a fazer muito mais sentido que modificar um vocábulo por uma questão de moda. Digo eu.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Coisas da Língua #1


Gosto de palavras. Mais de umas que outras, por um qualquer motivo: se numas penso encontrar um qualquer simbolismo, um enigma, outras despertam quadros, cenários, despertam os sentidos, são musicais, ou simplesmente boas de saborear, de enrolar na língua. Tudo, como de costume, ao sabor da vontade, onde a geografia e o sentido não servem para limitar.

Para iniciar mais um ramo desta árvore de deambulações, apetece-me trazer-vos os vocábulos "caregiver" e "caretaker".
Ambos significam "cuidador" em aquele que cuida de alguém ou alguma coisa. No entanto, são as pequenas diferenças que encontramos ao dissecar estas expressões que as tornam, para mim, irresistíveis.
Há anos li num livro de fantasia, se não me engano numa das obras de Úrsula Le Guin, que saber o verdadeiro nome das coisas é uma magia poderosa, que nos permite um tremendo poder sobre estas.
Ficou-me.

A grande diferença entre ambos os termos reside no facto que "caretaker" é acima de tudo aquele que cuida de algo material, de um imóvel, de um terreno, de uma coisa. Pode ser ou não da família do dono da coisa que requer cuidados, e é uma situação temporária.
"Caregiver" é aquele que cuida de alguém, do seu bem estar físico e/ou emocional.

É fantástico o que aprendemos quando olhamos com atenção para o nome das coisas. Este exemplo encerra em si a essência da lidação com o material e o emocional/ espiritual. Cuidar do lado material é tirar, tomar, acto temporário: taker.
Cuidar física e emocionalmente é um elo que persiste, que não é temporário, é dar de si e dar-se a si ao ser que requer cuidados, é ser um dador - giver.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

coisas de comer: Só porque em francês soa a gourmet, tomem lá um magret de canard au miel de romarin et citron



No outro dia em resposta à quotidiana questão do que fazer para o jantar, pensei: peito de pato.

Mas como tinha visto momentos antes um bom filme sobre uma história baseada em factos verídicos que metia a corte francesa, a Maria Antonieta, e estava imbuída de toda aquela coisa de Versailles, decidi que não senhor, qual peito de pato qual quê!
Que iria sair dos tachos um belo de um magret de canard au miel de romarin et citron, que é exactamente a mesma coisa, mas em francês soa logo a gourmet.

Antes de vos dar a receita, deixem-me só soltar mais um pensamento: pel'amor da santa, não arruínem uma parte tão boa como o peito do pato ao cozê-lo para fazer arroz. Para isso usem outras partes menos nobre e saborosas. Sacré bleu!
E quem tira a pele ao bicho?! Sacrilégio! Dá direito a guilhotina!

Dito isto, vamos lá.

Uma hora ou no mínimo meia hora antes, com uma faca dão uns cortes na pele (e só a pele!) num padrão quadriculado.
Preparam uma marinada com uma colher generosa de sopa de mel, (cá em casa havia mel de rosmaninho), sumo de meio limão, sal, pimenta e ervas de provence a gosto. Colocam os peitos, já regados com a marinada, de volta ao frio.

Cortam cebola em finas meias luas, e preparam os cogumelos frescos pelando-os e cortando-os em quartos.

Numa frigideira antiaderente, sem qualquer gordura, colocam a cebola. Quando esta começar a amolecer, adicionam os cogumelos.  Passado curtos momentos colocam na frigideira os peitos de pato com a pele para baixo. O lume estará alto neste ponto, porque queremos aquela pele tostadinha, linda de tão dourada e crocante q.b.; queremos que aquela gordura cheia de omégas saudáveis que está debaixo da pele derreta e escorra, mas não tão alto que queime tudo.
Quando viramos a carne baixamos o lume e adicionamos a marinada, e ali fica o lado mais magro dos peitos, a cebola e os cogumelos quase a confitar naquela mistura untuosa de gordura de pato, mel, limão e ervas.

Não deixar passar demais os peitos. Queremos que o interior fique rosadinho.

Para empratar fazem como quiserem, mas eu cá achei piada a uma caminha de cebola e cogumelos com o magret fatiado ligeiramente na diagonal, em fatias de cerca de um dedo de espessura. Acompanhei com agrião.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

coisas sobre mim: INFP #1


Segundo a Tipologia de Myers-Briggs, existem 16 tipos psicológicos. Este (INFP) é onde me enquadro. (O relacionamento interpessoal não seria tão mais fácil se nos conhecêssemos a este nível?!)






terça-feira, 16 de maio de 2017

Pessoas de quem gosto #7



Gosto de quem sabe apreciar a beleza de uma qualquer flor sem a colher; dos que ouvem o canto dos pássaros sem que lhes ocorra aprisioná-los. Dos que sabem admirar tudo o que mundo tem de belo e espectacular, sem a necessidade de causar dano, maltratar, tornar seu ou levar à extinção.



domingo, 7 de maio de 2017

Vida de cão: Uma edição especial "Pais e Filhos"


Encontrámos na banca de uma papelaria uma edição especial da revista "Pais e filhos" totalmente dedicada aos cães: - "A vida de um cão - Guia completo dos 0 aos 15 anos - Manual de dicas e conselhos para manter o seu cão feliz".
São cerca de 130 páginas onde se aborda uma panóplia de temas relevantes desde a escolha de um animal, os pormenores em redor da chegada deste, ao que fazer quando já existe um cão residente e se pretende adoptar mais um animal, regras e comportamento canino, a questão das férias, ensino, legislação, bem estar animal, actividades, saúde... Tudo por palavras de veterinários e entendidos da matéria.

Os capítulos que já li entretanto agradaram-me pelo tom sensato e conteúdo repleto de informação e factos.
Decidi partilhá-la convosco porque, para além de ser útil, é de louvar quem se preocupa com a transmissão de factos e conhecimentos, colocando o sensacionalismo e desinformação de parte.


 
 


terça-feira, 2 de maio de 2017

terça-feira, 18 de abril de 2017

coisas da casa: Cozinha americana ou tradicional?


Quando me imagino embarcar na aventura de remodelar a nossa casa, por vezes fico com a ideia que demolir parte da parede que divide a sala da cozinha, para criar um espaço aberto seria uma boa opção.

Assim à primeira vista as vantagens parecem-me ser imensas, para além de significativas.
- A circulação entre ambas as divisões seria facilitada, e é um factor importante quando se tomam as refeições na sala e isso implica quinhentas viagens por dia, para lá e para cá, para pôr e levantar a mesa.
- Unificar os dois espaços daria a sensação de uma casa com maior amplitude e luminosidade.
- Quem está na cozinha deixa de estar isolado, continuando a haver comunicação e socialização com quem está na sala.

Os chamados open spaces estão em voga. Esta solução comum nas casas norte-americanas, também especialmente pela repetida exposição do conceito em n programas televisivos de remodelações e decoração, tem conquistado adeptos por todo o lado.

Os modelos tradicionais também possuem as suas vantagens.
As cozinhas convencionais, fechadas entre paredes, permitem sobretudo proteger, em parte, as restantes divisões de cheiros de comida, vapores e ruídos.

Como em tudo, existem acérrimos defensores de ambos os modelos. Há quem diga que a vantagem de abrir a cozinha, de torná-la num espaço social, onde ninguém fica sozinho, preso às tarefas, ofusca todas as possíveis desvantagens. E há quem diga que se trata de uma boa opção se a pessoa não cozinhar nem sujar, mantendo-a com aquele aspecto novo e imaculado de revista de decoração. Caso contrário a desarrumação, os odores e vapores que se entranham um pouco por todo o lado, os ruídos, especialmente do extractor de fumos e cheiros, são terríveis de aguentar e motivam arrependimentos.

Eu é que ainda não me consigo decidir: se por um lado adoraria modernizar o nosso espaço, torná-lo mais amplo, por outro não me cativa lá muito a ideia de estar na sala e gramar com o ruído baixo mas constante do frigorífico, ou das máquinas a trabalhar.

Fosse o caso de estar a construir uma casa de raíz não hesitaria em optar por uma cozinha em plano aberto, com a condição de ter mais uma divisão - um misto de copa e despensa - adjacente mas fechada, onde se possam colocar todas as fontes de ruído, os grandes e pequenos electrodomésticos, do frigorífico à liquidificadora, e todas aquelas coisas que sendo essenciais ao funcionamento de uma cozinha não ajudam muito a manter o aspecto clean, bonitinho e super organizado que se quer no espaço aberto e sempre visível que é a cozinha americana.

A alternativa será optar pela colocação de um painel ou porta, num modelo que seja ao gosto do freguês. Esta para mim é de todas a melhor solução porque permite que abrir ou fechar a cozinha seja uma opção. E eu sempre prefiro opções a obrigações.



Vida de cão: a caminho dos 3 anos...


... e o Kiko ainda surpreende.

Em muitos aspectos, mas sobressai o quanto ele nos entende. Só vos digo que só falta um dia o puto começar a ladrar em português.

Todos os dias, após cada passeio, há um ritual de limpeza que é essencial sobretudo pelo facto de ele andar livremente por toda a casa, por cima dos sofás, da cama, etc.

Basicamente após cada ida à rua, salvo raras excepções, damos-lhe um pequeno duche com água morna. Não total, mas com a intenção de lhe lavar as patas, o rabiosque, a barriguita, os bigodes...

Depois, em especial nesta estação do ano em que toda a bicharada acorda para a vida, inclusive pulgas e carraças, examinamos-lhe o pêlo e as patas.

Não seria extraordinário se lhe fosse dado sempre o mesmo comando. Mas como eu sou mais freestyle, tenho a imperdível mania de simplesmente conversar com ele, e depois fico boquiaberta quando ele me entende à primeira.

Como há um par de dias em que andava eu no "blá blá blá, Kiko" e de repente solto um "filhote, agora temos que ver se tens carracita", e o puto salta para cima de sofá e coloca-se imediatamente de barriga para cima, que é a posição do costume para investigarmos as patas em pormenor.



terça-feira, 11 de abril de 2017

coisas que imagino: O plano 25


Se têm por hábito visitar este humilde estaminé saberão já, de certeza, o quão acérrima defensora sou da poupança.

Imagino que só esta primeira frase é capaz de fazer revirar uns quantos olhos, afinal é um tema que tem sido estereotipado como uma seca, que soa a obrigação logo é automaticamente catalogado como chato. E isso acorda o nosso mecanismo de defesa que nos ajuda a ignorar o mais possível as coisas que nos parecem chatas, especialmente se temos essa opção, certo?!

Se vos dissesse que o desenvolvimento de hábitos de poupança não tem que ser nem chato, nem doloroso, que a construção de um pé de meia pode ser uma das melhores coisas que podem fazer por vocês e por quem mais gostam, acreditariam em mim?

Poupar é como jogar. Se algumas vez tiveram pachorra para jogar um dos muitos jogos do género do Farmville, em que era necessária paciência e persistência para ir ver das colheitas de x em x horas, e lidar com aquela mecânica de jogo, então estão mais que capacitados.

Hoje venho falar da poupança, especificamente de pés de meia, como um dos maiores gestos de amor, um dos maiores presentes.
Chamo-lhe "plano 25", (até parece mais uma daquelas dietas desenhadas por nutricionistas!), porque consiste em colocar 25€ de parte todos os meses.
Tal como dizem os nutricionistas, não é uma dieta, é um estilo de vida. E daqueles que nos permitem continuar a comer de tudo, que o pessoal não gosta de grandes sacrifícios.

Porquê 25? Para que seja acessível à grande maioria das pessoas, independentemente do seu rendimento. Aliás, a poupança é benéfica para qualquer agregado, mais ainda mais para os de baixos rendimentos.
Porque é mais fácil incutir e desenvolver hábitos de poupança que perdurem se estes não forem demasiado exigentes.

Antes de mais, vamos lá esmiuçar o que são 25 euros: uma peça de roupa ou um par de sapatos, um ingresso para um jogo de futebol ou 2 cafés por dia, uma semana de pequenos almoços de galão e torrada, ou uma refeição para dois a preço médio numa Pizza Hut, cerca de 15 imperiais, 3 ou 4 bons cocktails, 4 bilhetes para o cinema, ou depilação a cera num centro de estética, 1 ou 2 livros, etc, etc, etc...

Dá para perceber a ideia.

Vamos lá então chegar ao meu ponto favorito desta exposição: que frutos dão esses 25 euros se semeados, e onde entra a ideia do amor nisto tudo.

Imaginem que no dia em que um(a) filho(a) vosso(a) nasce, assumem de forma inabalável que seguirão o "Plano 25" à risca. Que não deixarão de cumprir o compromisso de colocar de parte os tais 25 euros por mês, que não haverão desculpas para o incumprimento, nem cederão a tentações, mesmo que surjam imprevistos.

Ao fim de 18 anos terão amealhado 5400 euros. Não é nenhuma grande fortuna, mas se usados com cabeça poderão significar uma grande ajuda numa tão significativa etapa da vida.
Por exemplo, ( e é isto que acho especialmente maravilhoso!), este pé de meia especialmente para as famílias que vivem com um orçamento apertado, e para quem seria muito complicado e até impossível pagar as propinas de uma faculdade, significa que o factor económico já não será um obstáculo.
Fosse segundo as tabelas deste ano da Universidade de Lisboa, as propinas referentes a uma licenciatura (3 anos) ficariam por 3190,41 euros.

E ainda sobram cerca de 2200 euros. Que dariam para algumas despesas de curso, ou para tirar a carta de condução e comprar um carro em segunda mão.

Não é fixe haver uma forma em que todos os pais, independentemente do seu salário, possam oferecer tudo isto a um filho?!
Há um bom tempo atrás, numa conversa com uma amiga, esta defendia que se não fosse o pequeno crédito, e os pagamentos a prestações, muitas pessoas não conseguiriam comprar uma montanha de coisas, tipo famosos robots de cozinha, aspiradores "mágicos" caríssimos e afins. Eu hei-de sempre defender a poupança à mesma. A poupança é como o pagamento a prestações dos jogadores de xadrez: como estes, a pessoa prevê e adianta-se, com a vantagem de se poder pagar a pronto e sem juros.

Se os avós tiverem vontade e possibilidade de participar neste "Plano 25", estamos a falar de mais 10800 euros. E se houver tios que se juntem estaremos a falar de 16200, 21600...

Para os jovens que planeiam com antecedência pode significar ter já de parte o valor para dar como entrada na aquisição de habitação própria. Para os mais empreendedores, o valor necessário para dar origem a um negócio. Para os mais independentes, a possibilidade de ir explorar a vida noutras paragens, ou de serem trabalhadores estudantes, numa casa alugada, com a segurança de terem uma almofada que os ajude nas despesas, especialmente nos momentos maus.
Tantas, tantas possibilidades, e tão significativas para qualquer jovem adulto, possíveis quando, por amor, pessoas da sua rede familiar decidem abdicar de 1 café por dia durante 18 anos.










segunda-feira, 27 de março de 2017

cromices #148: "Canificação" involuntária



Devido à quantidade de tempo que passo na companhia do meu cão, temo verdadeiramente que da próxima vez que brinque com uma criança me dê o reflexo de lhe atirar uma bola e dirigir-lhe um "busca!".

cromices #147: Truques de magia para cães



Nem sei o momento exacto em que me ocorreu começar a fazer uma espécie de "truques de ilusionismo" para entreter o Kiko. Tenho a certeza que foi num daqueles dias em que o clima não ajuda aos passeios, os brinquedos não o cativam, e ele fica especialmente maçador.

O fantástico dos cães é que nos basta fazer qualquer coisa inesperada com uma dose generosa de entusiasmo e o maravilhamento é garantido. Para ambos, devo confessar.

Pois bem, preparem-se, que aqui a maga vai revelar um dos seus truques!

Escondam algumas bolinhas nas mangas. Mexam as mãos com teatralidade, adicionem uns efeitos sonoros e vão "espremendo" as bolinhas, uma a uma, para fora do esconderijo. Garanto-vos que é a loucura total! Por aqui o Kiko fica em puro êxtase e até me devolve as bolas como que a pedir um encore!





quarta-feira, 22 de março de 2017

coisas de pensar: O feng shui, a religião e o bicho papão.



Feng Shui surgiu há cerca de 4000 anos. De forma muito sucinta, o objectivo desta corrente de pensamento é ser uma ferramenta para dotar os espaços físicos de equilíbrio, harmonizar as energias, potenciar a influência positiva destas e minimizar a influência negativa sobre estes.
Dizem os chineses que actua nos espaços físicos da mesma forma que a acupuntura age no organismo. Segundo esta filosofia oriental, a busca da harmonia com as forças benéficas da Natureza aumentarão a prosperidade, a saúde e a boa sorte.

Há anos senti-me especialmente curiosa acerca do Feng Shui e comprei um livrinho sobre o tema.
Muitas das dicas mais básicas desta filosofia estão relacionadas com o manter a casa limpa, organizada e sem tralha.
Diz que uma casa de banho suja, com a tampa da sanita levantada e porta aberta gera más energias, assim como ter os armários da cozinha desorganizados, com louça escavacada e produtos presentes que estejam estragados, fora da validade, é mau para a prosperidade. Que a presença de tralha no quarto, de aparelhos eletrónicos próximos na cama, de objectos relacionados com o trabalho, são inimigos do descanso.
São apenas alguns dos exemplos. Coloquemos só por uns momentos os óculos de cepticismo e veremos coisas que qualquer pessoa considerará tão banais que não precisa que exista um livro ou uma corrente filosófica que ensine: que se andamos a deixar comida estragar-se, passar de validade, então é óbvio que acaba por ser mau para a prosperidade, que é o mesmo que deitar dinheiro ao lixo; que uma casa limpa será um espaço propício à saúde, que num espaço cheio de tralha onde de dois em dois passos se dá uma canelada algures a pessoa não se sentirá cheia da tal boa sorte, não é?
A intenção não é de forma alguma desprimorar esta antiga corrente, mas utilizá-la como adjuvante a um raciocínio.
Diz o filósofo que há primeiro que aprender a gatinhar para depois aprender a andar. Isto aplica-se tanto ao indivíduo como em relação à evolução da espécie.
Acho que até a mais céptica das pessoas achará imenso valor numa filosofia que incita a hábitos de organização e higiene, mesmo que seja necessária a utilização de chamarizes como prosperidade e sorte para tal. Duplica, triplica, quadriplica o seu valor se tentarmos imaginar o que seria corrente em hábitos de limpeza e higiene há 4000 anos atrás. Olhem que a minha imaginação não pinta um quadro nada auspicioso!

Voltando às palavras do filósofo, quando somos crianças e os adultos sentem que estamos ainda numa idade em que não nos vão conseguir fazer compreender através do diálogo a importância de comer a sopa, a fruta, o peixe, de dormir cedo, de lavar os dentes, de estudar, de arrumar o quarto, usam-se outros métodos, nem que a de ameaçar chamar o bicho papão caso não se sigam as regras impostas.
Tudo com uma relativa paz de espírito, porque os adultos sabem que é temporário, que passados uns anos todos iremos compreender os benefícios de todas as regras que nos incutiam, e que nos vamos rir do bicho papão. Que certamente utilizaremos as mesmas artimanhas para educar os nossos filhos.

Proverbialmente, onde há duas, há três. Serviram o Feng Shui e o bicho papão para me trazer à religião.
Quero olhá-la com os mesmos óculos de cepticismo que coloquei há pouco.

Imagino-me na era e no papel de quem escreveu textos religiosos, que se tornaram regras para tantos.
Imagino o contexto histórico, geopolítico, social. A espécie humana com os ímpetos que conhecemos mas com menos uns milhares de anos de evolução, progresso, educação e literacia. Não me é difícil imaginar a necessidade global de inventar sistemas de crenças com o objectivo de incutir princípios morais e regras de comportamento mais elevados, mesmo que o preço fosse edificá-los sobre um modelo arcaico e dualista de castigo/ recompensa. Mas lá está, falamos de outros tempos, ou gosto de pensar que foram outros tempos.

Imagino-me como um desses escritores religiosos, (é o termo que prefiro), com uma relativa paz de espírito, a pensar que é temporário, que passados uns anos a Humanidade compreenderá por si mesma o porquê de não matar, de não roubar, de não cobiçar, de amar, perdoar, servir, e rir-se-á das estórias com bichos papões.

Mas e quando o bicho papão habita na religião? Quando esta defende a pedofilia através do casamento de homens velhos com meninas, quando se defende a existência de escravas sexuais como solução para o adultério, entre outras pérolas do mesmo calibre?
Quem é que desata agora este nó?




domingo, 19 de março de 2017

Vida de cão: Atenção à lagarta do pinheiro


Na povoação onde vivem os meus pais existe um parque canino, e ao pé deste um ou outro pinheiro. Não seria um facto em nada relevante não estivesse esse pinheiro a servir de morada à nefasta praga que é a lagarta do pinheiro. Ao que parece um dos cães que se passeiam pelo parque, curioso como todos os cães, sofreu na pele a consequência da presença destes bichos. Teve que levar quase meia dúzia de injecções devido às toxinas que a processionária injecta nas suas vítimas e perderá parte da língua devido a uma necrose dos tecidos.

Esta lagarta não é só perigosa para animais, mas também para as pessoas, em especial para as crianças, e até para as próprias árvores.
Esta espécie ataca pinheiros e cedros, e é comum em Portugal. Por isso decidi partilhar convosco um texto que retirei da página do ICNF, e onde poderão ver fotos destes insectos nas suas várias fases de desenvolvimento.


"1 - O que é a Processionária ou Lagarta do Pinheiro?

A processionária ou lagarta-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa Schiff.) é um inseto desfolhador que afeta as espécies dos géneros Pinus e Cedrus. Este inseto é endémico em Portugal e a severidade dos ataques depende do nível populacional, o qual é por sua vez profundamente influenciado pelas condições meteorológicas (temperatura e insolação), pelo conjunto de inimigos naturais ativos em cada estádio de desenvolvimento da praga (aéreo ou subterrâneo) e pela qualidade e quantidade de alimento, dos quais depende a fecundidade das fêmeas.
O nome processionária vem da procissão formada pelas lagartas quando abandonam a parte aérea da árvore e se dirigem para o solo, onde se enterram para iniciarem a fase de pupa que pode durar de 1 a 3 anos.


2 - Quais as espécies hospedeiras mais comuns em Portugal?

Em Portugal os hospedeiros principais deste inseto são os pinheiros, qualquer que seja a sua espécie.


3 - Que sintomas se podem associar à Lagarta do Pinheiro?

Os sintomas mais conhecidos são os ninhos, que constroem na ponta dos ramos, onde se refugiam quando não se estão a alimentar durante o Inverno.
No entanto, entre julho e novembro podem observar-se tufos de agulhas avermelhadas, ligadas por fios sedosos, nos ramos expostos ao sol, sendo visíveis lagartas dos primeiro e segundo instares. Os ninhos grandes, em forma de bolsões, constituídos por fios brancos e sedosos, na parte apical dos ramos expostos ao sol, aparecem a partir do Outono.


4 - A Processionária pode ser perigosa para pessoas e animais?

Sim. As lagartas da processionária-do-pinheiro a partir do terceiro instar (novembro-dezembro) desenvolvem pêlos urticantes que provocam alergias na pele, nos olhos e no aparelho respiratório dos seres humanos e podem provocar os mesmos sintomas nos animais.


5 - O que fazer quando se encontram lagartas de processionária?

a)    Se encontrar em área florestal (que não seja sua propriedade) afaste-se;
b)    Se encontrar em espaços públicos em áreas urbanas:
a.    Afaste-se e entre em contacto com a Proteção Civil, Câmara Municipal ou com os serviços regionais do ICNF I.P. http://www.icnf.pt/portal/icnf/contact/serv-desc
b.    Nas escolas e outros locais onde estejam presentes crianças, impedir, sempre que possível, o seu acesso à zona das árvores atacadas sobretudo na altura em que as lagartas descem da árvore.
c.    Em caso de aparecimento de sintomas de alergia, consulte de imediato o posto médico mais próximo.
c)    Se encontrar na sua propriedade, deve tomar as medidas necessárias e recomendadas para controlar ou eliminar a presença do inseto, evitando a sua dispersão.


6 - Como se dispersa a processionária?
O inseto pode dispersar-se de forma natural através do voo dos adultos ou através da circulação de plantas ou partes de plantas hospedeiras. As fêmeas podem voar alguns quilómetros para selecionar um hospedeiro e aí efetuarem as suas posturas. Como elas se dirigem para as silhuetas dos pinheiros, as posturas concentram-se nas árvores de bordadura ou naquelas que se encontram isoladas.


7 - Que medidas de controlo podem ser tomadas?
Existem diversos meios de controlo que podem ser aplicados:
janeiro a maio: destruição das lagartas em procissão e pupas no solo

Aplicar cintas adesivas nos troncos das árvores embebidas em cola à base de poli-isolbutadieno  para captura das lagartas aquando da procissão de enterramento;
  • Proceder à recolha manual e queima das lagartas encontradas no solo (cuidado com os pelos urticantes!);
  • Mobilizar o solo, nos locais onde se suspeita de enterramento, para destruição das pupas.

  • junho a setembro: uso de armadilhas
    • Instalar armadilhas iscadas com feromonas sexuais (1 a 3 por hectare), para captura de machos (borboletas).

    setembro a outubro/novembro: tratamentos bioquímicos
    • Através de inibidores de crescimento, hormonas de muda dos insetos e inseticidas microbiológicos à base de Bacillus thuringiensis (apenas eficaz no estado de ovo ou nos primeiros instares de desenvolvimento larvar 8-10 mm de comprimento) - até outubro;
    • Através de microinjeção no tronco (lagartas até 30 mm) - normalmente eficaz entre setembro e novembro.

    outubro a dezembro: destruição de ninhos
    • Proceder à remoção manual dos ninhos seguida de queima ou injeção de um inseticida piretróide de síntese nos ninhos (ação a executar durante o dia, quando as lagartas se encontram no ninho).
    8 - Quem deve proceder aos tratamentos para controlo da processionária?

    As medidas de controlo para a processionária devem ser tomadas pelos proprietários/gestores das árvores afetadas. No caso da aplicação de inseticidas devem ser observadas as normas de higiene e segurança e só podem ser aplicados inseticidas aprovados pela DGAV, seguindo os requisitos legais de comercialização e aplicação de produtos fitofarmacêuticos, pelo que deve sempre consultar o sitio digital da DGAV antes de qualquer aplicação:
    http://www.dgv.min-agricultura.pt/portal/page/portal/DGV/genericos?actualmenu=3665921&generico=3669837&cboui=3669837 "

    quinta-feira, 16 de março de 2017

    coisas de opinar: A gentil arte de fazer inimigos.



    A caminho dos 38 anos, a pessoa que sou hoje é uma versão muito distante da miúda que deixava as questões por resolver, que optava, (pelo menos na maioria das situações, até porque há limites), por fugir de possíveis confrontos, e ficava calada.

    O que se passou esta manhã foi um óptimo exemplo:

    Ao pé da minha casa há um café, e muitos dos seus clientes cumprem a secular tradição nacional de querer estacionar o mais próximo possível da porta do estabelecimento, mesmo que isso implique ocupar o passeio, dificultando a vida aos peões, e até correndo o risco de os atropelar, pois decidem subir com os veículos numa zona onde o passeio é mais baixinho, mas que não tem qualquer visibilidade, e toca de avançar por cima do passeio, por vezes a toda a brida, surpreendendo quem vai a pé que só não é passado a ferro se tiver bons reflexos.

    A desculpa de não haver estacionamento disponível simplesmente não é desculpa, pois a 10 metros de distância há toda uma rua com imensos lugares à espera de serem usados. Trata-se simplesmente de uma questão de preguiça e egoísmo, uma daquelas situações em que se pensa só na própria comodidade e que se lixem os outros. Às vezes nem é por maldade, é porque vamos pela vida em piloto automático, em que a variável "outro" nem sequer chega a entrar na equação das nossas vidas, nem é um factor considerado.

    Esta situação não é de agora, arrasta-se há anos. Mas em cada manhã que vou passear o Kiko e me confronto com o passeio ocupado, ou que quase somos atropelados, é mais uma gota no copo, e inevitavelmente chega o dia em que o copo transborda.

    Hoje foi o dia.
    Há umas semanas que o passeio tem sido ocupado por três ou quatro carrinhas, do transporte de pessoal da construção civil que vão ao café antes do trabalho.
    Já no regresso para casa, tivemos mais uma vez que optar por contornar uma das carrinhas pelo lado da estrada e corrermos o risco de sermos atropelados, (que os condutores que por aqui passam demonstram cada vez mais uma conduta perigosa, desatenta e até criminosa), ou passar pelo lado de dentro, num corredorzinho com cerca de 30 cm de largura entre a carrinha e muros, em que implicaria eu levar com folhagem e ramos de sebes na cara. Optei pela segunda.

    Após libertar-me daquele emaranhado de verde que tive que furar com a cabeça, dei de caras com um aglomerado de pessoas que presumi e bem serem os ocupantes das carrinhas. E pensei que de hoje não passaria, e lá fui dar-lhes uma palavrinha.
    Perguntei a um senhor se era o condutor da carrinha que acabara de contornar, disse que não. Mas logo apareceu um senhor solícito, que embora também não fosse o condutor, se mostrou disponível para me ouvir.
    Com educação e gentileza, usando até um por favor pelo meio, pedi-lhes se lhes seria possível passarem a estacionar 10 metros mais atrás. Que ali havia toda uma rua com "quilos" de estacionamento, e assim não bloqueavam o passeio. Que é perigoso ter que passar pela estrada, e havendo estacionamento não há necessidade de tal.
    Um dos senhores concordou de forma enfática comigo. Os outros não sei, pois mal expus o meu pedido agradeci e segui caminho.

    Quando chegámos a casa e contei ao marido, meneou a cabeça e soltou um "lá estás tu a fazer inimigos".
    É nestes momentos que me sinto como o Sheldon do Big Bang em termos de aptidões sociais. Disse-lhe veementemente que achava que não. Se tinha sido educada e gentil, se usei um tom amigável e até um "por favor", se expus de forma breve um bom argumento, e apresentei uma melhor solução que respeita as necessidades de ambos, não há motivo para encarar esta abordagem como uma entrada em guerra.
    Eu sei, eu sei... As pessoas, na grande maioria, não gostam nem um pouco de ser contrariadas e aceitam pessimamente as críticas, venham elas com pregos ou paninhos de pelica.

    Neste momento sobressai a minha esperança no poder da argumentação, da diplomacia, e simplesmente da boa vontade entre as pessoas. Amanhã de manhã, em mais um passeio matinal com o Kiko, logo tirarei uma conclusão sobre se o diálogo vence, ou neste mundo estamo-nos mesmo a cagar para os outros.

    Depois conto-vos.





    sexta-feira, 3 de março de 2017

    cromices #146: Dos "super-poderes" pouco úteis



    Quem é que nunca desejou ter super-poderes como os personagens de filmes, séries e bandas desenhadas?

    Ter o dom da invisibilidade, da regeneração, correr como o Flash, ter a força de um Hulk ou as capacidades telepáticas do Professor Xavier...
    São todos tão cativantes que se me pedissem para escolher um só poder a escolha seria difícil.

    Exageros à parte, o que tenho de mais parecido com um "superpoder" pelos vistos é a capacidade de adivinhar o que o meu marido almoçou. Coisa que acontece com tal frequência que até já gozamos com a situação.

    Ontem durante a tarde, comecei a pensar no jantar, e ocorreu-me hambúrgueres ou salmão. O marido chega a casa, e como de costume pergunto-lhe o que almoçou: hambúrguer de salmão.
    Goza comigo, e eu respondo-lhe que mais uma piadinha e sirvo-lhe é couves de bruxelas. Descamba tudo: o acompanhamento do tal hambúrguer de salmão havia sido couves de bruxelas. Claro.

    Anteontem, pensei em costeletas. Chega o marido, repete-se o ritual, o que é que almoçaste e tal: costeletas.

    Não dá antes para acertar na chave do euromilhões?!

    sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

    coisas de jogar #8



    Beholder

    Este jogo passa-se numa sociedade totalitária, num cenário distópico inspirado por vários autores como Orwell, ("1984").

    Aqui assumimos o papel do personagem principal - Carl. A saga de Carl e da sua família inicia-se com uma carta do governo, em que este é informado do seu novo papel: o de porteiro de um prédio.
    O seu papel é saber tudo sobre todos, e reportar através do mítico telefone vermelho, o ministro.
    Aqui, não há escolha que não tenha consequências.




    cromices #145: As pessoas são como o caviar, ou todas as moedas têm duas faces.



    A minha Mãe tem vários apelidos carinhosos com que me trata. O meu favorito foi sempre, de longe, o de "bruxinha". Sem saber deste pormenor, o meu marido também me trata por um cognome muito semelhante, e a ambos respondo "bruxinha não, bruxa má da floresta, faz favor!", antes de me desmanchar a rir.

    Agora lembrei-me que também gosto de "ursa na gruta" de tal forma que estamos perante um empate.
    De qualquer modo, são ambos petit noms que me assentam que nem uma luva, e que uso ao peito como um crachá com um desmedido, e talvez exagerado, prazer.
    Para além de lhes achar piada acho que revelam parte da minha natureza, especialmente a parte relacionada com introversão e o meu afincado gosto por passar tempo comigo própria, em casa de preferência, perdida em leituras, projectos e pensamentos ou até num estado de graça de dolce far niente.

    "Credo! Mas és assim, tão... tão anti-social?!" - perguntarão. Ao que eu responderia, "tem dias". Ou melhor ainda, "tem momentos".

    Nada define melhor o meu lado lunar de que a memória de quando li pela primeira vez o "Assim falou Zaratustra". Estava a meio da minha adolescência e a primeira coisa que me ocorreu foi uma inveja do personagem: "Cabrão do velho! Sortudo do caraças! Desce à aldeia só quando lhe apetece mandar uns bitaites e depois volta para a gruta, onde ninguém o chateia!"
    Também quero viver numa gruta, pensava eu. É claro que esta teria que ter todos os confortos, do wc ao wi-fi.

    Ou ainda uma memória de quando teria uns 3 ou 4 anos, e ia com a minha mãe às compras pela mão, e volta e meia encontrávamos uma senhora na rua, e esta insistia no "dá cá um beijinho", o que era uma autêntica maçada para mim, e eu escondia-me atrás das pernas da minha mãe. E mesmo assim o raio da mulher não se calava com a trampa do beijinho, o que resultou numa espécie de reacção pavloviana, comigo a queixar-me que não queria beijinhos e que ela era chata mal a topava no fundo da rua.
    Na verdade comecei a enfadar-me tanto, mas tanto, com a insistência geral em relação a isso dos beijinhos a toda a hora e a todo o momento, que um dia passei-me dos carretos e mordi a bochecha de uma menina, depois de minutos com a minha ama, a mãe da menina e até esta a instar na coisa. E eu, truncas, toma lá! Uma espécie de grito do Ipiranga, de "deslarguem-me a braguilha!"

    Não é que não gostasse ou goste de beijinhos, apenas nasci a dar valor à liberdade de os dar quando e a quem quero. Aqueles que eu poupava na rua, levava-os para casa e para sofrimento do meu pai, dava-lhos todos de uma virada. Sentava-me no seu colo, prendia os meus bracitos à volta do seu pescoço, e dizia-lhe "Papá, vou-te dar cinquenta beijos", e o desgraçado do meu pai não se livrava de mim nem um beijo antes.

    Quanto aos tipos sociais eu quedo-me exactamente no meio, qual equilibrista na linha que separa a introversão da extroversão que ora pende para um lado ou para o outro.
    Há quem só conheça o meu lado mais cordial, simpático, empático, sorridente, conversador, paciente e atenta ao próximo q.b.. Há momentos em que consigo ser tão faladora e maçadora como qualquer outra pessoa, e até demonstro uma comum tendência para a repetição e uma particular incidência nas piadas secas.
    São os momentos em que consigo e quero canalizar a minha energia para o mundo exterior, tão genuínos e parte de mim quanto os instantes em que a minha atenção se vira para dentro, para o mundo interior, para mim mesma, e se fecha ao que vem de fora.

    São faces da mesma moeda, um não existe sem o outro. Em mim, com tudo o que isso implica, não existe lado solar sem lado lunar. Quando não respeitam o meu lado lunar, a face solar eclipsa-se.

    Quando tenho que interagir gosto especialmente de o fazer com a minha faceta solar. Gosto genuinamente de pessoas e é igualmente verdadeiro o sorriso que ponho na cara para todos. Existe um esforço da minha parte para dar o meu melhor nessas ligações, para prestar mesmo atenção às conversas, e demonstrar real interesse mesmo que o tópico não seja dos meus favoritos, ou que já esteja a ouvir pela segunda ou terceira vez o mesmo discurso. Obrigo-me a estar disponível, presente, a ser tão positiva quanto consiga, porque acho que é assim que tem que ser, que tanto eu como as outras pessoas merecem essa qualidade, essa intenção, aquando os nossos contactos. Não se trata de fingimento, mas de canalizar o melhor que temos para oferecer naquele determinado momento.

    E há quem só me conheça assim: basicamente são as pessoas que me permitem apreciá-las como caviar, ou qualquer outra iguaria especial que preste à metáfora por se dever degustar com parcimónia, uma colherzinha de cada vez.

    São as que entendem que não devem insistir em mais chamadas quando desligo a primeira, porque depois da segunda tentativa, especialmente se for de seguida, sou bem capaz de desligar o telemóvel durante uma semana. Que quando digo não ter disponibilidade para vídeo chamadas naquele momento, e voltam a insistir, fazem com que me desligue de qualquer chat por tempo indeterminado. Que quando se cruzam comigo saberão que há dias em que não dá para mais que a troca de um cumprimento, e não insistem em despejar-me um monólogo em cima, para o qual não terei naquele momento nem tempo nem paciência. Especialmente se for às 7h da manhã, por Deus! Que querendo obrigar-me a sujeitar-me à sua vontade ignorando a minha, obrigam-me a ser descortês, o que me desagrada igualmente.
    São as que entendem que para pessoas como eu a existência de afectos não depende de se falar todos os dias, ou todas as semanas, ou até todos os meses. Que não querer estar sempre a conversar não é, de todo, o mesmo que estar zangado, ou doente, ou mal. É simplesmente ter uma personalidade e necessidades diferentes. O que a uns energiza e dá prazer a outros cansa.
    Uma colherzinha de caviar pode ser uma iguaria, para alguns, mas se vos fizerem comer toda uma tigela de enfiada, não será mais que algo gelatinoso e salgado.